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terça-feira, 25 de maio de 2010

Ademar

Há-de-Mar


Na morte do Ademar Ferreira dos Santos


Dissesse o que dissesse
sempre disse o que pensava

era como um cavalo
sem selo nem sela
correndo livre
contra todas as correntes

O Ademar não se cala assim
no súbito da morte quotidiana,

ele, que apenas nos proibia
a indiferença
continuará a sua luta
contra o conformismo
da auto-congratulação paroquial

erudito ministério
do pensamento,
como um eremita
dos tempos transmodernos
o vamos honrar

sábado, 15 de maio de 2010

Ultimidade das perguntas

Na ultimidade
das perguntas
e o sentido do existir
sob deuses incompreendidos
sem perceber
os brigues que largavam
a carga humana e escravizada
«eram eles humanos, e nós os animais».

Percorrendo
os mares do Mundo
onde cada corpo extinto
acendeu uma estrela
nos Céus de África

quinta-feira, 25 de março de 2010

Leandro

O Leandro,
que nada sabia de «bullying»

entrou pela água
do rio da sua terra
e fundiu-se nos ramos e nas rochas
desse rio

porque talvez
sofresse atrozmente
como nunca nenhum escriba
sensacionalista alguma vez sofreu

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Um céu tão próximo




Sob a censura
e os limites celulares
de um céu tão próximo
de Oriente e de Ocidente

vacilaremos no infortúnio
devassando a solidão
das multidões errantes
e suportando o castigo
por não plantarmos as árvores

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sentinela


Sentinela
escarnecido
do Império
A ti
e aos teus iguais
te saudávamos
admirando-te
o porte altivo
em contraste
com as alpercatas
de improviso
Ficou-nos
o teu riso
tolerante
com os meninos
que te fitavam
Ó fiel sentinela
dum Império
improvavelmente
fragmentado.
A ti te saudamos
como irmãos separados
de mãos dadas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ilha de Moçambique

És miragem
no cheiro ofuscante
do cravinho das naus
e da carne padecente
dos escravos
como gado

mesmo assim, és porto amigo
por longos anos,
transportando o sangue
de persas, industânicos e malaios
reconfigurando-te
a negritude vaga
de um passado altivo

tu, para sempre navio
fundeado
sobre a âncora da fortaleza
que abrigou
milagres cristãos
ouvindo preces brâmanes
sob a convocação dos muhedin´s

entrosados em uníssono
ritual de homens
que se encontraram
depois de naufragar
em índicas errâncias

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Definitiva luz

Sob a definitiva luz
do Índico
onde fundeavam as naus
carregadas de infortúnio
e padecimentos profanos
sob essa poeira
dos caminhos de terra
vermelha
incendiando a febre
dos mortais combatentes
de guerras equívocas
fortalecendo as crenças
e as hostes do império
glorificadas em vãs edificações
de matérias plurais
e de nostalgia como argamassa

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Encruzilhada

Encontro-me em frente
de uma indecifrável encruzilhada
numa serena hesitação

se pudesse escolher um caminho
como até agora,
mais ou menos conhecido,
mais ou menos seguro...

mas, conhecendo o caminho
já não nos poderemos perder

perder-se, perdermo-nos
em todos os caminhos
qualquer que seja o motivo
e encontrar o inesperado
que nos é essencial

é essa escolha
por isso, não poderá ser nunca
sensata ou esclarecida
encontro-me na minha própria encruzilhada
uma encruzilhada muito habitual
de uma assombrosa humanidade
de uma humanidade trivial
e desconcertantemente exacta

não é indiferente
escolher caminho
mas podes sempre trocar-lhe as voltas
e regressar de cabotagem
ao porto de partida
ou partir de vez
com destino ao sonho
sempre adiado

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hoje, uma árvore


Uma árvore
é uma prece
corporizando todas as liturgias
redimindo todas as indignidades
e há árvores
que são velhas como famílias
como nações coesas
são edifícios mais solenes
que as casas
ou as catedrais
onde se pode escutar
o trânsito das gerações
e o esvoaçar dos cânticos
ancestrais
e de sempre

quarta-feira, 25 de março de 2009

O misterioso nascimento das palavras

No sempre misterioso nascimento das palavras
em que o dito
é significado de ancestrais
aprendizagens
irrompendo submissas
ou insolentes
sobre preconceitos
e inábeis preserveranças
iluminando de sentido
a rectidão da humanidade

sexta-feira, 6 de março de 2009

bmw, marca aziaga

O primeiro mau contacto com um veículo bmw, foi uma ultrapassagem perigosíssima pela esquerda, numa via rápida, em que só um "6.º sentido" acabou por me salvar a vida e a dos meus acompanhantes.
A seguir veio outra situação, que me pôs definitivamente avesso a essa marca de carros; foi quando um indivíduo que conduzia um veículo dessa marca embateu no meu velhinho opel astra e danificou o lado esquerdo traseiro. Sem ponta de razão, ainda teve a prosápia de dizer que «como o dele não tinha tido nada, eu nem podia provar que ele me tinha batido».
Por último, há bem poucos dias, um desses «charutos metálicos» passou a noite inteira a disparar o alarme avariado, à frente de minha casa. Ninguém acudiu. O dono nem estaria por perto, caso contrário teria aparecido, por ter acordado. Passei a noite sem pregar olho. telefonei para a PSP, mas disseram-me que «não podiam fazer nada; iam ver se identificavam o dono e dizer-lhe [certamente com grande reverência, tratava-se de um «bm»!] para resolver a situação». Rebocá-lo àquela hora, nem pensar, porque o reboque não operava à noite, nem tinham para onde levar o «canhangulo, para mais a apitar».
Depois, associo a marca aos "empresários" arrivistas e burgessos - sobretudo quando entram em dificuldades -, às suas mulheres analfabetas e pretensiosas, aos rapazelhos que os compram em 2.ª mão, para impressionar as miúdas dos shoppings, aos seguranças banhudos da noite. Não suporto essa fauna que costuma habitar e tripular os bmw´s, o que hei-de fazer?
É verdade. Não não acho o bmw particularmente conseguido, no que diz respeito à estética. Os modelos envelhecem e ficam definitivamente ultrapassados, sem o "glamour" de outros carros antigos. Dizem-me que, mecanicamente, «é do melhor». Não duvido. Mas confesso ter uma antipatia visceral por essa marca de carros.
Preferia que fosse uma das marcas a abrir falência.

quinta-feira, 5 de março de 2009

As casas da Ilha



As casas da Ilha
velhas casas
desabitadas
mas sobrelotadas
de metais remanchados
nesgas, fendas na pedra e cal
a ruína ao sol
e ao vento monçónico
enquanto o macúti resplandece
na pele lisa das raparigas
que deambulam
nas ruas planas da Ilha
que abrem todas para o mar
são casas velhas
com tanta gente
com tanta história
e o mar por dentro
da transparência
a falta de medo do mar
no crepúsculo
da Ilha, ao som macio das ondas
e do balanço suave das casuarinas

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Hai ku

destruo
o destro
destronado

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Alba

A Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves)


Poeta sem abrigo?
Qual quê! Só quem o não conhece
Poeta de todos os territórios
poeta da rua, sim
poeta vindo do nada
poeta da vida e da interpelação
poeta vivente, total
a coberto da telha vã
do alpendre da capela de St.º Adrião
(que estranha centralidade telúrica)

O Alba morrerá postumamente
como soem morrer
os que não morrem
de atropelamento e fuga

Meu caro,
gostava de ter escrito um bilhetinho informativo
como o teu
sobre o espólio de um morto resistente

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Hai ku

Utilização do w.c. contra o pagamento de € 0,50.

Contra o pagamento da utilização do w.c. por € 0,50.

sábado, 24 de janeiro de 2009

segredo de estado
segredo de-testado

Mesmo como excepção

mesmo como excepção
guantanamo
não era lá muito apresentável

domingo, 18 de janeiro de 2009

Como os bichos

Às vezes, vinha alguém bater à porta. Como a rádio deixara de emitir, só podia confiar no que diziam esses viandantes, à deriva, caminhando não sei para onde. Pouco a pouco, foram rareando essas visitas. Calara-se toda e qualquer voz, todo e qualquer vestígio humano. Só o miar paradoxalmente cioso dos gatos, me dava a certeza de que continuava a haver mais vida animal. Um dia, arrisquei sair, e tive a confirmação de que desenvolvera essa rara doença, que me fez resistir à catástrofe, como os bichos

Dia após dia

Às vezes, vinha alguém abrir a porta. Com o passar do tempo deixou de aparecer
aquela senhora gentil, que nos mandava entrar e pormo-nos à vontade, como em «nossa casa» (confirmaram-nos, depois, a suposição de que tinha morrido). Dia após dia, a porta continuava fechada, as paredes deixando cair o salitre. Cada vez mais, temíamos o que pudesse ter acontecido. A inspecção sanitária levara os últimos despojos, as últimas résteas dessa memória da casa. Francamente, nunca soubemos porque é mais ninguém ligou nenhuma à situação.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Hai ku

Ode
Louca

Ode louca
Odelouca