domingo, 5 de janeiro de 2014

Daniel Faria

«Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um lugar para os outros»

Rei (Eusébio)

Rei

Nasceste para o Mundo no campo pelado da Mafalala, que foi a tua "escola" e "centro de estágios" (como se diz agora), onde acamaradavas com Craveirinha, esse outro génio do desporto e da escrita. Talvez te tivesses cruzado com Malagatana, também.
Dominaste a bola de trapos que se te colava aos pés, e impunhas-te, com mestria e respeito, a todos os teus adversários.
Vieste em miúdo para um país distante e tão diferente do teu.
Foste admirado, interesseiramente por uns, genuína e merecidamente por quase todos.
Voavas sobre todos os centrais e eras enorme no espanto e na humildade de menino pobre do subúrbio de um império em erosão, que te exibia como exemplo da pseudo fraternidade multirracial (tu e a "D. Amália", como dizias).
Eras o "Rei" (qual "pantera negra"!!), mas um rei de carne e osso, sofrido, nosso, amistoso.
Tiveste, realmente, o "mundo a teus pés".
Serás sempre o brilho dos estádios e das multidões, pois só as estrelas brilham depois de mortas.


(Escrito em 5-1-2014)

quarta-feira, 20 de março de 2013

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Arriscar a vida

 
 
















Conta-se que Ricardo Chibanga, o mítico toureiro luso-moçambicano, noite alta, depois de uma tourada, foi perseguido por assaltantes, que lhe barraram o caminho e o intimaram a dar-lhes o apuro da bilheteira que revertera para ele.
Chibanga ia com a família no carro, e teve o "sangue-frio" de sair e dizer aos seus perseguidores: «Os senhores desculpem, mas eu também arrisco a vida, para sustentar a minha família. Se não se importam, deixem-me continuar em paz o meu caminho».

Os salteadores entreolharam-se, e decidiram deixá-lo continuar viagem, sem nada lhe extorquir.
A diferença para os nossos dias é que os nossos dirigentes já não arriscam a vida deles...mas, mesmo assim, não deixam ninguém sossegado.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Carregadores


 

















A pena que me dá ver essa gente
Com sacos sobre os ombros, cansadíssima!...
Às vezes, é meio dia, o sol tão quente,
E os fardos a pesar, Virgem Santíssima!...

À porta dos monhés, humildemente,
Mas a manhã desponta a rir suavíssima
Vestindo rôtas sacas, tristemente
Lá vão ´spreitando a carga pesadíssima...

Quantos, velhinhos já, avós talvez,
dez vezes, vinte vezes, lés a lés
Num dia só percorrem a cidade!...

Ó negros! Que penoso é viver
A vida inteira aos fardos de quem quer
E na velhice ao pão da caridade...

[Rui de Noronha, Sonetos]

domingo, 1 de abril de 2012

Série askari (23)

«Tropas landins» de Manjacaze, Moçambique (cortesia de António Botelho de Melo; foto editada a partir do original)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XXIV) – D. Manuel Vieira Pinto e a família Reis Bravo

Em finais de 1967 chega a Nampula o novo bispo, D. Manuel Vieira Pinto, designado pelo então cardeal patriarca D. António Gonçalves Cerejeira, que o pretendia afastar do cenário da metrópole, onde a mensagem de D. Manuel acerca da guerra e da dignidade do Homem começara a ser incómoda para as autoridades civis e eclesiásticas.
O apostolado de D. Manuel Vieira Pinto imprimiu uma marca relevante na posição de alguns sectores da Igreja Católica em Moçambique e nos outros territórios ultramarinos, sobre as questões coloniais e, sobretudo, quanto à guerra.


Aspectos da Catedral de Nampula em 1965


José dos Reis Bravo e Maria Vitória sentiram-se impelidos a participar mais activamente na vida da Diocese de Nampula, com a chegada do então «novo» bispo. D. Manuel Vieira Pinto (que assinava como «Padre Manuel, bispo de Nampula»). Maria Vitória Bravo na catedral de Nampula em 2009 Aspecto do interior da Catedral de Nampula em 2009



D. Manuel era «novo» em diversas acepções: era um bispo recentemente ordenado e vinha de um grupo de reflexão cristã e missionária muito próxima do ex. bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, com ideias progressistas no seio da Igreja – pretendendo cumprir as determinações do Concílio Vaticano II – mas também ao nível político, apoiando a procura de soluções pacíficas para a guerra colonial dos territórios ultramarinos.

D. Manuel congregou o apoio de muitos religiosos e religiosas já estabelecidos no território, como eram os casos do padre Sousa (depois assumiria o cargo de secretário episcopal), de padre Costa e irmão Dias (da paróquia central), do padre Patrício, conseguindo atrair alguns outros, devido à sua forma de viver a Igreja e a Verdade de Cristo. Do conjunto dos seus colaboradores mais próximos, podem lembrar-se ainda os padres José Luzia, João Manuel, Germano Leça, Maria Adelaide Balcão Reis (que foi professora de Jorge Bravo), que comungavam das ideias de igual dignidade das pessoas e dos princípios da não discriminação e da Paz, que eram o principal programa de D. Manuel: uma Igreja de Verdade na Terra. Convém também recordar a permanência periódica do padre Vitor Feytor Pinto enquanto prelector dos primeiros cursos do Movimento por um Mundo Melhor, bem como de Frei Miguel de Negreiros. Entre as religiosas, não se poderão esquecer as irmãs da Casa de Saúde do Marrere e as irmãs Valente e Sacré Coeur, da leprosaria da Namaíta.

Painel da Catedral de Nampula, da autoria do pintor João Araújo (amigo de D. Manuel Vieira Pinto que lhe encomendara o trabalho )


O casal Reis Bravo conta-se entre os primeiros apoiantes de D. Manuel. Essa dedicação e amizade fizeram-nos tornar-se leigos activos na vida diocesana, desempenhando diversas actividades dentro dos Cursos de Cristandade, do Movimento para um Mundo Melhor, da paróquia central de Nampula e junto de projectos do próprio Paço episcopal, como o de desenvolvimento social e humano do bairro do Namicopo (Pax et Caritas).
Até à expulsão de D. Manuel Vieira Pinto pelas autoridades coloniais, em Março de 1974, após diversas manobras de desestabilização das pessoas do círculo de relações do bispo, o casal Reis Bravo manteve-se sempre apoiante do bispo, não evitando, por isso, ter o escritório do seu estabelecimento devassado, sem qualquer motivo invocado, por agentes da então DGS.


D. Manuel com leigos e religiosos, em recepção no Paço episcopal de Nampula, aquando da inauguração do Centro Social Pax et Caritas, que contou com a presença de D. Maria das Neves Rebelo de Sousa, esposa do então Governador-Geral, Baltasar Rebelo de Sousa.


Entre as actividades mais relevantes que José dos Reis Bravo desempenhou na Diocese de Nampula – e muitas outras houve – pode mencionar-se a de provedor do Hospital do Marrere, onde, aliás nasceram os três filhos do casal e onde José Bravo foi operado com êxito a uma rotura do tendão de Aquiles, pelo Dr. Freixo Osório, por indicação do saudoso Dr. Júlio Monteiro, Director Clínico do Hospital.

Provisão de D. Manuel a formalizar a Mesa da Direcção do Hospital do Marrere


O empossamento no cargo formalizou-se em 6 de Agosto de 1973, embora já antes dessa data José Bravo desempenhasse efectivamente as funções inerentes ao mesmo. No decurso do seu mandato, José dos Reis Bravo pôde contar com o permanente e estusiástico apoio das irmãs, corpo clínico e demais pessoal da Casa de Saúde, tendo levado a cabo um conjunto de obras e melhoramentos de todo o equipamento, como remodelação da sala de partos e do bloco operatório, construção de nova cozinha, obras de construção de quarto de banho privativo em todos os quartos individuais, melhoramento das condições da enfermaria dos doentes nativos, os quais tinham tratamento gratuito, em função do contributo dos doentes com mais posses.

D. Manuel, com leigos e crianças das aldeias próximas de uma Missão (vendo-se António Bravo, à esquerda e Maria Vitória à direita de D. Manuel)

Aspecto do Hospital do Marrere em 2009


A amizade e apoio a D. Manuel Vieira Pinto (entretanto nomeado arcebispo pelo Papa João Paulo II) foi uma constante até à sua expulsão (em Março de 1974, após a divulgação do documento «Imperativo de Consciência»), mantendo-se após o seu regresso a Nampula e a Independência do País, até à actualidade, seguramente devido ao conteúdo intrínseco da sua mensagem apostólica e, essencialmente, das suas coerentes práticas.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Série Askari (22)

Askaris do Império colonial alemão

sábado, 26 de novembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XXIII) – O caso do bilhete premiado

A sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª era representante da Casa da Sorte, na cidade e região de Nampula. Nessa qualidade, inicialmente, a Casa Reis (re)vendia lotarias a outros comerciantes, que tinham negócios na cidade ou em cantinas no mato. Só mais tarde foi inaugurado o jogo «Totobola». Inauguração do jogo Totobola na Casa Reis, em Nampula

Numa operação que hoje se designaria de “marketing vitrinista” (de elevado recorte), José dos Reis Bravo colocou, certa ocasião, na montra, diversos molhos de papel da mesma medida de notas de 1.000$00, com uma nota real por cima, dando a ilusão de se tratar de montes de notas perfazendo 1.000.000$oo (cerca de € 5.000,00). Composição vitrinista desaconselhada pela PSP de Nampula, devido às tentações que podia incitar

Durou pouco a veleidade “vitrinista”, sendo prontamente intimado pelo comandante da PSP local a retirar tais artigos, dado o potencial de atracção que representava para “interessados” no “prémio” exposto, atendendo a que naquele período se verificava uma incidência inusitada de crimes de furto.
Havia, naturalmente, diversos cauteleiros de etnia macua, que procediam à revenda da lotaria à consignação, tendo um período limite para a sua devolução, podendo destacar-se, pela sua notável eficiência e espírito de entrega ao trabalho, os cauteleiros Peliquito “Chico” Mussa, “Piconero” e Pastola Sitora. Dos dois primeiros há que registar o seu empenho e a longa permanência ao serviço da Casa Reis. O último tinha uma deformidade congénita na coluna, o que o tornava especialmente procurado, dada a superstição de alguns jogadores, segundo os quais «dava sorte» roçar com os bilhetes de lotaria na corcunda.Aspecto do exterior da Casa Reis, no dia que foi pago o prémio



Nos diversos anos em que se vendeu lotaria, muitos bilhetes foram premiados, a cidadãos de todas as condições e extractos sociais. Por se tratar de prémios de valor relativamente baixo, nunca houve qualquer incidente no tocante ao pagamento e recebimento dos mesmos, por parte dos titulares dos mesmos. Contudo, quando se tratava de valores de prémios considerados «muito elevado», as autoridades administrativas pretendiam sempre restringir aos titulares – numa atitude “colonial-paternalista” –, tratando-se de cidadãos de etnia macua, o direito a receber o valor integral do prémio, alegando que parte do mesmo ficaria sob a gestão do administrador do concelho, que o aplicaria em fundos ou depósitos onde rendesse juros que, oportunamente, reverteriam a seu favor.



Em certa ocasião, porém, saiu o segundo prémio da lotaria nacional numa cautela de um bilhete a um cidadão nampulense de etnia macua. Por se tratar de um valor relativamente elevado, um outro residente pretendia adquirir o bilhete de lotaria por valor superior, a fim de o remeter para Portugal, como se se tratasse de dinheiro (escudos) da metrópole, dadas as restrições de transferências de capitais da província. Contactou José dos Reis Bravo, propondo-se adquirir a referida cautela, dizendo-lhe que tentasse convencer o premiado de tal intenção, pois lhe seria mais vantajoso receber uma quantia algo superior à do prémio (em escudos moçambicanos). José dos Reis Bravo ficou apreensivo com tal proposta, além de poder incorrer nalgum tipo de responsabilidade cambial, pelo que a declinou. José dos Reis Bravo, acompanhado de Juma Martade, entregando o valor do prémio ao premiado , ladeado pelo cauteleiro «Pastola Sitora»


Pelo contrário, optou por reconhecer o incondicional direito de uma pessoa a receber, em plena autonomia da vontade (e na plenitude das suas faculdades), o valor de um prémio de lotaria, combinando com o cidadão ganhador a data do recebimento do valor correspondente, para o que levantou oportunamente o montante no Banco. Aquele compareceu na data combinada para receber o seu valor, a contado, em cima do balcão da Casa Reis, entregue por José Bravo e por Juma Martade. O evento é testemunhado por muitos populares, tendo sido notícia nos jornais e na Rádio.
O premiado investiu o valor do prémio num camião, que foi de imediato encomendar na Pendray Sousa, e não consta que tivesse aplicado mal o remanescente.

sábado, 19 de novembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XXII) – Um projecto do Arquitecto José Forjaz e de Mestre Chale

A certo momento, constata-se que o estabelecimento Casa Reis (da sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª) se tornara ultrapassado e pouco funcional. Surgiu a ideia de o remodelar, para acompanhar, aliás, a transformação arquitectónica que a cidade conhecia na época, nomeadamente a nível comercial, com o aparecimento de estabelecimentos comerciais, hoteleiros e de restauração verdadeiramente «modernos» e com projectos de arquitectura de grande qualidade e funcionalidade.
Sucedeu, nesse contexto, a feliz circunstância de José dos Reis Bravo travar conhecimento com o arquitecto José Forjaz, então a prestar serviço militar em Nampula, e que se dedicava a pequenos trabalhos de arquitectura quase pro bono, exercitando um pouco do que viria a ser o seu «estilo». Expõe-lhe o seu interesse em remodelar o estabelecimento e indaga da disponibilidade daquele para tal tarefa. José Forjaz aceita o desafio. A fachada da Casa Reis, após a remodelação pelo arquitecto José Forjaz

Foi nessa ocasião que o estabelecimento se expande e ocupa todo o rés-do-chão do edifício que já ocupava no lado direito, implicando a transferência da Ourivesaria Tito Martins para a esquina da Avenida Presidente Carmona com a Avenida da Catedral (actuais Paulo S. Kankhomba e Eduardo Mondlane). Aspecto parcial do interior da loja

Nessa tarefa, conta-se com a insubstituível colaboração de Mestre Chale, sobrinho dilecto de Juma Martade, o fiel empregado da firma Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª

Aspecto parcial do interior da loja, após a remodelação



Chale demonstrara ser já um carpinteiro e marceneiro de excepção, oficial inteligente, eficiente, esclarecido, meticuloso, reservado e óptimo executante. Chale e José Forjaz entenderam-se na perfeição, referindo muitas vezes José Forjaz que não era preciso acabar de dizer o que pensava fazer, porque o oficial intuía facilmente o alcance do que ele pretendia e avaliava logo da possibilidade de executar a ideia em função dos meios disponíveis. Os "desenhos" do projecto eram esboços feitos a lápis de carpinteiro na parede em bruto (antes dos acabamentos de pintura). E assim se foram desenrolando os trabalhos de execução da obra, que demandou essencialmente muitos acabamentos de carpintaria, com estantes e tectos falsos, sendo projectados os balcões, a divisão dos espaços e o aproveitamento do pé-direito com tectos falsos (que serviriam de armazém).


Aspecto parcial do interior da loja, após remodelação

O arquitecto José Forjaz dirigia e visitava a obra pelo final da tarde e Chale era o encarregado e executante dos trabalhos mais exigentes. Nunca foi necessário mandar refazer um trabalho executado por Chale.


Aspecto parcial do interior da loja


O resultado foi um estabelecimento com decoração de interior de notável qualidade e funcionalidade, adaptado aos negócios, ao clima e à tradição da firma (o que se pensa ser visível nas imagens que ilustram este texto), onde José Forjaz insistiu em manter a velha, mas operacional, máquina registadora, que foi sempre referência da loja, fazendo a ponte entre o passado e a modernidade.

Aspecto parcial do interior da loja, onde é visível a velha máquina registadora National



O projecto simbolizou para a empresa, um ponto de cruzamento, por um lado, entre a tradição colonial e a modernidade tropical, e, por outro, entre o talento artístico do arquitecto português e o engenho do artífice africano.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XXI) – Nampula, uma urbe com qualidade

Nampula desenvolvia-se rápida, mas harmoniosamente. A cidade, à imagem de outras dos territórios coloniais, obedecia a planos de expansão e desenvolvimento racionais, inspirados na Escola de arquitectura colonial francesa, que planeava ortogonalmente o terreno, opção favorecida pela orografia do terreno.
Em Nampula, sempre foi predominante a actividade comercial e de serviços, sendo as iniciativas industriais mais raras. Uma franja apreciável de comerciantes indo-paquistaneses – muitos deles já naturalizados – coexistia, em concorrência “pacífica”, com comerciantes de origem portuguesa. As cantinas tradicionais e outras lojas e armazéns mais convencionais, de comércio geral, coexistiam agora com estabelecimentos modernos e especializados: de moda, de que a Casa Dias era um dos exemplos mais acabado – com a casa mãe, a «Feira» e a sapataria –, de restauração (A pastelaria do Hotel Portugal, autêntico lugar de "glamour socialite" da “capital macua”, os restaurantes Escondidinho, Aquário, Floresta, Brasília, a Marisqueira, o exclusivista restaurante-bar Bagdad), de mercearia («Pegue-e-pague» e o supermercado Montegiro), bancários (o B.N.U., o Standard Totta, ostentando painel da autoria de Pancho Miranda Guedes e o Montepio), a casa de Fotografia Koy, as Livrarias Sonil e Villares, a Gelataria Dantas, entre tantos outros. Painel da autoria de Pancho Miranda Guedes na agência de Nampula do Banco Standard Totta
O edifício do Hotel Portugal, vendo-se o letreiro da Sapataria Dias, ao lado da Pastelaria do Hotel e observando-se, estacionado, o (grande) veículo do seu gerente, senhor A. Marques.



Além desses exemplos de arquitectura comercial, outros exemplares de equipamentos públicos civis exibiam uma arquitectura de qualidade invejável, como o Museu de Nampula (inaugurado durante a visita do Presidente Craveiro Lopes em 1956, e que durante algum tempo publicou um Boletim de inestimável valor no âmbito dos estudos etno-antropológicos), o Cinema Almeida Garrett, o Hospital Egas Moniz (na altura da sua inauguração considerado como um dos três melhor equipados de toda a África), o Clube Niassa (actual sede da Câmara Municipal de Nampula), os Colégios de Nossa Senhora das Vitórias e Vasco da Gama, a Escola Industrial e Comercial (e Ciclo Preparatório) Neutel de Abreu e o Liceu Gago Coutinho. O edifício do Clube Niassa, aquando da sua reconstrução, após incêndio. O Cine Teatro Almeida Garrett O Liceu Almirante Gago Coutinho
O Colégio Vasco da Gama



Para além disso, constatava-se uma assinalável qualidade arquitectónica em significativo número de projectos de edifícios residenciais, como os conjuntos de moradias que bordeja(va)m o Parque Felgueiras e Sousa, da Rua das Flores e do Bairro do Benfica, que coexistiam harmoniosamente com a traça arquitectónica colonial dos edifícios de data mais antiga. Pode dizer-se que um estilo «tropical» sucedia ao estilo «colonial». Vista parcial da cidade



A catedral, elemento arquitectónico que pontifica em local visível de praticamente toda a cidade, tem assinatura do arquitecto Raul Lino. Deve registar-se que o conjunto de edifícios religiosos cristãos, designadamente igrejas, de Moçambique não são exemplares de arquitectura muito atractiva, com excepção da catedral de Maputo e da igreja de St.º António da Polana, sob projecto do arquitecto Nuno Craveiro Lopes, que devido a divergências sobre a localização do altar, praticamente renegou a sua autoria. No entanto, a catedral de Nampula é um exemplo de alguma elegância construtiva, apesar de datada. Postal da catedral (vista do edifício do Tribunal)
A urbe civil era complementada pelos aquartelamentos militares, com enorme área de implantação, racionalmente acantonados na zona das «Companhias», lugar assim chamado por evocar o sítio da instalação das companhias militares que procederam à pacificação do território na época de Neutel de Abreu e do régulo Mukapera. Aspecto da cidade



Esta conjugação de circunstâncias potenciou um quadro de grande qualidade arquitectónica geral da cidade, tanto a nível de projecto urbanístico e traçado de arruamentos e disposição de equipamentos, como do edificado, o que emprestava uma inegável qualidade de vida aos seus habitantes mais favorecidos, o que – há-de notar-se – não era extensivo aos habitantes dos bairros periféricos, em rápida expansão, onde as infra-estruturas de redes de esgotos, de abastecimento de água, telefone e electricidade não chegavam.

domingo, 6 de novembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XX) – A "Nampula cultural"

Talvez devido à sua ressonância histórica, Nampula, a par de Lourenço Marques, entretanto capital da província, foi sempre um meio culturalmente activo e dinâmico, actualizando-se relativamente à “metrópole” e ao estrangeiro.
Nampula tinha como equipamentos sociais, o Cine-Teatro Almeida Garrett, o Museu, o Hospital, os Clubes Niassa, Sporting, Ferroviário, Benfica, Socorros Mútuos, bem como as Rádios, sendo de destacar neste particular, a programação de inícios dos anos 70 do séc. XX, nalguns espaços de emissão nocturna, de música de intervenção, em que se ouvia José Afonso, Francisco Fanhais e José Mário Branco (sobretudo numa rubrica apresentada por João Carlos, que trabalhava na agência de viagens Zuid e era radialista nocturno). O Cine-Teatro Almeida Garrett, em primeiro plano, e os edifícios João Ferreira dos Santos e Hotel Portugal, em segundo

No Cine-Teatro Almeida Garrett (de M. Suleiman), para além da programação normal (Westerns, filmes italianos, filmes portugueses, filmes de Bollywood, e, por fim, de Karaté), albergava-se o Cine-Clube, que fazia criteriosa programação de filmes clássicos, desde o cinema americano (John Ford, Hitchcock, entre outros) aos filmes europeus da “nouvelle vague” do cinema francês e do neo-realismo italiano, como os de Jean-Luc Godard, Polansky, Truffaut, Rosselini, Fellini, Visconti e Bergman. O [Cine-Teatro] Almeida Garrett foi palco de inúmeras apresentações de teatro e de variedades, por companhias idas da metrópole, e de teatro de revista, sendo famosas as sessões tardias, em que, fora do horário normal, os machambeiros e solteirões do interior vinham comprar peças de joalharia na Ourivesaria Tito Martins, para oferecer às actrizes e coristas depois do espectáculo, num dos bares nocturnos da cidade. O Museu de Nampula (actual Museu Nacional de Etnologia)
O Museu (Regional Comandante Ferreira de Almeida) de Nampula, inaugurado em 1956 e cujo Boletim (semestral) constituiu publicação de referência mundial no domínio dos estudos da antropologia cultural e da etnografia, tendo o seu espólio servido de inestimável suporte ao monumental estudo (de quatro volumes) de Jorge Dias e Margot Dias sobre «Os Macondes de Moçambique» (editado pela Junta de Investigações do Ultramar, entre 1964 e 1970). Vista aérea do Hospital Egas Moniz
O moderno e avançado Hospital Egas Moniz era um equipamento de referência a nível internacional, no tocante a instalações de saúde pública e mesmo nalgumas especialidades, sendo complementado pela Casa de Saúde do Marrere (que pertencia à Diocese). Na época em que foi inaugurado, chegou a ser considerado o terceiro melhor equipado de toda a África. Vista do edifício de estabelecimento Cassam Vissram, primeira sede de João dos Reis em Nampula


Os estabelecimentos de ensino ministravam instrução de inquestionável qualidade, sendo dirigidos por directores de grande capacidade de gestão e craveira cultural, e onde leccionavam professores estabelecidos na cidade e onde, a certa altura, muitas esposas de militares também contribuíam para o respectivo corpo docente.


Vista parcial da cidade


Notícia da actuação de Amália em Nampula


Os três clubes principais, Sporting, Ferroviário e Niassa concentravam grande parte das actividades sociais e desportivas dos residentes brancos. As equipas de futebol desses e do Sport Nampula e Benfica disputavam o campeonato provincial, com jogos dominicais no estádio municipal. A frequência da piscina do Clube Ferroviário era uma ocupação incontornável para grande parte da população jovem e mesmo para muitos militares que se encontravam estacionados nos aquartelamentos. É de destacar, igualmente, a importância do Pavilhão de Desportos, onde além de inúmeras manifestações desportivas – com especial incidência no basquetebol no Minibasket, na patinagem artística, no hóquei em patins, no boxe – serviu de palco a actuações de grandes artistas, como Amália Rodrigues, por duas vezes. Mas servia, também, como sala de um Clube de Cinema, ali passando os filmes que mais agradavam à juventude (comédias italianas, westerns, filmes românticos e musicais, etc).


Amália, entre senhoras, no Clube Ferroviário de Nampula

Actividades predominantes do Pavilhão eram os espectáculos de boxe e, principalmente, os torneios de futebol de salão amador entre equipas que representavam diversas firmas da cidade. Entrega de prémios da patinadoras, no Pavilhão de Desportos do Clube Ferroviário


Estádio Municipal de Nampula


Conta-se, ainda, entre as ocupações desportivas e de lazer, o Centro Hípico, local onde muitos nampulenses aprenderam equitação com o saudoso Senhor Margarido, instrutor sábio e paciente para com os aprendizes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Série askari (21)

Askaris do Império colonial alemão (Tanganica), desfilando em Dar-es-Salam.

sábado, 22 de outubro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XIX) – Uma infância africana (3.ª parte)

A família Reis Bravo não vivia propriamente com dificuldades (embora não se pudesse dizer que vivia desafogadamente), mas sempre se fez questão de moderar as despesas, reutilizando e reciclando roupas, utensílios e livros escolares, havendo a clara noção da necessidade de racionalizar as finanças familiares. A mãe e os irmãos

Em termos educativos e disciplinares, os irmãos António e Jorge não deram especiais preocupações aos pais, tendo um percurso escolar normal. Privilegiavam-se como castigos as privações de privilégios e proibições de saídas de casa ou de idas ao cinema e à piscina, uma das principais atracções de recreio para a juventude de Nampula. Também era fomentado o mérito escolar, com a atribuição de prémios por notas elevadas. Tó entre amigos e crianças protegidas numa Missão


Entre os amigos mais próximos dos irmãos Tó e Jorge, podem enumerar-se, sempre com risco de alguma injustiça de omissão, os colegas Vidinhas, Francisco Matias, Nandocas e Ulisses Marta da Cruz, “Kiko”, Luís Moutinho, José (Manuel dos Reis) Pereira, Jorge Nascimento, Peixe, Xavier, José Miguel Morgado, Zé Rebelo, Tó Mané Correia. Entre as amigas, que também as havia, podem enumerar-se as irmãs Cruz, bem como as colegas Ângela Dias, Ana Maria Hernâni, Ângela Margarida (“Guida”) Pires, Nani Bragança, além dos irmãos e vizinhos Armando e Alda Gonçalves. Apenas uma vez, após “brincadeira” que poderia ter tido consequências muito nefastas – pedradas atiradas reciprocamente, tendo acertado uma no queixo de António –, o pai castigou ambos corporalmente (com reguadas nas mãos), após sutura do queixo de Tó, no Hospital, salientando de forma mais “veemente” a inconsciência e gravidade das consequências (para os próprios) da “brincadeira”. Aspecto parcial da Av. Presid. Carmona (actual Paulo S. Kankhomba)

Certo dia, um episódio fugiria à rotina no quotidiano de Jorge: encontrara um miúdo negro a pedir esmola, e não tinha dinheiro nem outros bens para lhe dar. Nessa altura, o camarão pequeno e o amendoim eram servidos gratuitamente quando acompanhassem cerveja ou outras bebidas, nos restaurantes e cafés. Pensou então num estratagema que, se batesse certo, aliviaria a fome do miúdo e dirigiram-se os dois à esplanada da Pousada Moura. Aí, pediu ao empregado que lhes trouxesse um prato de amendoim e um prato de camarão acompanhados de… água. O empregado ficou surpreendido, mas, ou porque tivesse percebido a situação ou porque tivesse decidido assumir ele alguma comparticipação na «despesa», serviu o pedido e trouxe os pratos de camarão e de amendoim, acompanhados de … água. O pequeno comeu, deliciadamente, o camarão e o amendoim, e Jorge bebeu água. Esplanada da Pousada Moura


No final, perguntou ao empregado «se…era alguma coisa»?, tendo-lhe este respondido que «Não», não deixando de sorrir, ante o expediente ardiloso para atenuar a fome daquele miúdo, do qual nunca mais soube. Jorge agradeceu ao empregado, que já conhecia de vista e entre ambos nasceu uma relação de respeito e amizade cúmplices, desde esse dia.






(Fotos ext. do Livro Recordações de Moçambique, Carlos Alberto Vieira, Aletheia Ed.)