domingo, 17 de julho de 2011

José do Telhado escreve a Camilo Castelo Branco





Da correspondência recuperada de Camilo Castelo Branco










A José Eduardo Agualusa

Não era ainda hora do jantar, mas da cozinha evolava o cheiro de um souflé de bacalhau que apurava no forno. Camilo estava junto ao muro da propriedade, em S. Miguel de Seide, nos bancos de pedra em que costumava sentar-se a ler nas tardes de Verão com Ana Plácido. Ouviu o ferrolho a rodar e viu o rapaz do caseiro, Domingos, que trazia o correio entregue nessa manhã no hotel Vilanovense.
- Sua bênção, senhor D. Camillo, com permissão do senhor, aqui trago as cartas e revistas do correio.
- Entra, Domingos, já merendaste? Fila-te do bolo que a Joaquina fez e da fruta que quizeres, se é que não ficas para jantar, que tão bem cheira.
- Ná, senhor D. Camillo, o meu Paizinho espera-me para o ajudar nas dornas, antes das Avé-Marias. Por aqui lhe dou o correio; até logo e bem-haja.
Camillo agradeceu ao moço, dando-lhe as moedas que tinha na algibeira. Viu que o correio se compunha de revistas literárias, dos jornais do Porto da véspera e atentou numa carta maltratada, que se via ter sido dobrada, enrolada, manchada, cujas letras se deformaram. Mas era-lhe dirigida. O remetente era ilegível, apenas se lendo «…lanje – Angola». Seria de quem? De seu amigo Vieira de Castro ou de Zé do Telhado. Que tamanha ironia. Dois dos seus melhores amigos, que ele defendera, e sobre os quais escrevera, encontravam-se degredados na África Ocidental portuguesa.
Do lote de correspondência, foi a primeira carta que abriu, de forma resoluta e ansiosa. Era de José Teixeira da Silva, o famigerado aventureiro e salteador novelesco conhecido como Zé do Telhado. A carta estava escrita em letra grande, legível, espaçada. Felizmente, o sobrescrito protegera-a das humidades e nódoas que o marcavam por fora. Era este o seu teor, revelado, depois que foi encontrada em prateleira escondida da Casa de S. Miguel de Seide, por altura da remodelação do edifício:

«Excelentíssimo Senhor Camillo Castello Branco
Ilmo Visconde de Corrêa e Botelho
Mui talentoso e distinto escritor
S. Miguel de Seide

África Occidental portuguesa e Malanje, 14 de Julho de 1871

Esperando que a presente carta possa, sem contrariada demora ou extravio, chegar célere ao seu destinatário, porquanto deposito no seu portador enorme confiança, pretendo, por ella, fazer-lhe chegar as novas que hey por bem comunicar-lhe, Senhor Camillo. A carta foi expedida por um amigo que deixará Luanda no dia 21 próximo, em vapor que se prevê chegar a Leixões no dia 17 do próximo mês, de modo a encontrál-o ainda no Porto, antes de se dirigir a S. Miguel de Çeide. É ele o meu bom amigo capitão de fragata Emílio Magalhaens Roxo de Almeida, que conheci na malograda viagem que fiz para este degredo perpétuo em que me encontro, e que de muita valia se revelou, para além da amizade sincera que nos nutrimos de modo recíproco.
Relembrando as extraordinárias circunstâncias do nosso encontro, nesse ano de 1861, infausto para ambos, e correspondendo a solicitação de Vossa Excelência, quando juntos expiávamos responsabilidades mundanas na Cadeia da Relação do Porto, sou a honrál-o com notícias minhas e dos meus feitos actuaes.
Do que faço, por ora, nestes sertões dos confins do que chamam nosso Império das colónias, nada digno de fausto haverá a narrar, no que ao meu arranjo e labor pessoal diz respeito.
Estabelecido me encontro nesta vila de Malanje, que é pouco mais que projecto de aldeia, com posto administrativo, o presídio, o forte, oito casas de alvenaria e três dúzias de palhotas de nativos, que de pouco vivem, fazendo as suas lavras e delas tirando o que necessitam. Constituí família, tendo de minha mulher Conceição, já, três filhos varões. Prossigo, como saberá, o meu negócio de cera, bebidas e marfim.
Tenho-me, por isso, esforçado, por bons motivos, na actividade venatória de caça grossa, que é aqui coisa de grande empresa, sempre auxiliado por gente da família de minha nova mulher, que grande lealdade me vem demonstrando. O marfim é negócio que poderia ser bem mais rendoso, considerando o preço que as peças atingem na Flandres e Inglaterra, não fossem todos os intermediários que lucram o que não deviam.
Desta terra posso dizer que me tem sido agradável, tanto quanto é possível. Para além do grato bálsamo de uma família que, de novo, tive que constituir, devo confessar a minha admiração por esta gente nativa, que encontrei. Muitos destes gentios nunca viram brancos, sendo que me vêem como misto de curiosidade e ser sobrenatural. Têem ideas e conceitos muito simples, uns deles afirmando que de nada se importam de padecer nesta vida, porquanto após a morte, voltarão como brancos, para reviver o que de bom o Mundo tem para lhes dar.
Os cafres, embora sejam parcos em civilidade, não são bárbaros, no sentido nefasto do termo, tendo suas crenças e modo de pensar muito utilitários e voltados para a ingência do viver quotidiano, acreditando piamente nos oráculos dos feiticeiros e seus feitiços, com excepção de alguns que mais convivem com os missionários que estão vindo, diz-se, a evangelizar o território e os nativos.
Asseveram-me que, em tempos passados houve uma grande rainha Ginga, cujo exército heroicamente guerreou os nossos reis e seus representantes, passando depois a ser sua aliada.
Algumas vezes me perguntam, por missiva, os filhos que deixei no nosso torrão natal, que faço eu aqui no meio dos pretos, que me amancebei, inclusive, com uma (só depois do fallecimento de minha querida primeira esposa), sugerindo-me que me passe ao Brasil, onde se reuniriam commigo, ao que lhes respondo tal ser em contravenção à pena que recebi de degredo perpétuo para esta terra, a menos que quizesse, de novo, ficar sob a inclemente alçada da lei; sei, enfim, os meus deveres e minhas obrigações para com as auctoridades, não quero tornar a ser alvo de querellas e perseguições.
Se quer acreditar o que penso hoje no efeito da pena que recebi, aceito-a por boa e, não dizendo que me regenerei – pois me não senti nunca degenerado – o certo é que venho meditando nos meus feitos pelos quais fui condenado, e deles não me envaideço. Tenho-me tentado corrigir por mim, ajudando sempre os que mais precisam.
Houve ecos, aqui, de que o fidalgo Vieira de Castro, ao que julgo saber, seu grande amigo, terá assassinado a esposa, por infidelidade desta, e veio degredado para Angola, sem que eu saiba o sítio exacto do seu estabelecimento; farei por sabê-lo, a fim de poder valer-lhe, dentro das minhas pobres possibilidades.
No que ao seu pedido mais caro respeita, meu bom amigo, sobre palavras em uso pela população, que pudessem ser curiosas ou extravagantes, devo anunciar que as que registei não creio serem dignas de menção. De todo o modo aqui lhe deixo as que convenho em serem merecedoras de referência, do dialecto falado pelos nativos, que dizem ser língua quimbúndu:

Ndandu – significando abraço; kutondela – agradecer; kitololo – arrependimento; muxima – coração; sansuka – viver; kamba ria muxima – amigo do coração.

Do seu devotado e eterno admirador e kamba ria muxima
Para sempre ao dispor

José Teixeira da Silva» José do Telhado e seu irmão


Gravuras extraídas de Camilo Castelo Branco - Memórias Fotobiográficas (1825-1890), de José Viale Moutinho, Caminho, 2009.

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