quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Série askari (21)

Askaris do Império colonial alemão (Tanganica), desfilando em Dar-es-Salam.

sábado, 22 de outubro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XIX) – Uma infância africana (3.ª parte)

A família Reis Bravo não vivia propriamente com dificuldades (embora não se pudesse dizer que vivia desafogadamente), mas sempre se fez questão de moderar as despesas, reutilizando e reciclando roupas, utensílios e livros escolares, havendo a clara noção da necessidade de racionalizar as finanças familiares. A mãe e os irmãos

Em termos educativos e disciplinares, os irmãos António e Jorge não deram especiais preocupações aos pais, tendo um percurso escolar normal. Privilegiavam-se como castigos as privações de privilégios e proibições de saídas de casa ou de idas ao cinema e à piscina, uma das principais atracções de recreio para a juventude de Nampula. Também era fomentado o mérito escolar, com a atribuição de prémios por notas elevadas. Tó entre amigos e crianças protegidas numa Missão


Entre os amigos mais próximos dos irmãos Tó e Jorge, podem enumerar-se, sempre com risco de alguma injustiça de omissão, os colegas Vidinhas, Francisco Matias, Nandocas e Ulisses Marta da Cruz, “Kiko”, Luís Moutinho, José (Manuel dos Reis) Pereira, Jorge Nascimento, Peixe, Xavier, José Miguel Morgado, Zé Rebelo, Tó Mané Correia. Entre as amigas, que também as havia, podem enumerar-se as irmãs Cruz, bem como as colegas Ângela Dias, Ana Maria Hernâni, Ângela Margarida (“Guida”) Pires, Nani Bragança, além dos irmãos e vizinhos Armando e Alda Gonçalves. Apenas uma vez, após “brincadeira” que poderia ter tido consequências muito nefastas – pedradas atiradas reciprocamente, tendo acertado uma no queixo de António –, o pai castigou ambos corporalmente (com reguadas nas mãos), após sutura do queixo de Tó, no Hospital, salientando de forma mais “veemente” a inconsciência e gravidade das consequências (para os próprios) da “brincadeira”. Aspecto parcial da Av. Presid. Carmona (actual Paulo S. Kankhomba)

Certo dia, um episódio fugiria à rotina no quotidiano de Jorge: encontrara um miúdo negro a pedir esmola, e não tinha dinheiro nem outros bens para lhe dar. Nessa altura, o camarão pequeno e o amendoim eram servidos gratuitamente quando acompanhassem cerveja ou outras bebidas, nos restaurantes e cafés. Pensou então num estratagema que, se batesse certo, aliviaria a fome do miúdo e dirigiram-se os dois à esplanada da Pousada Moura. Aí, pediu ao empregado que lhes trouxesse um prato de amendoim e um prato de camarão acompanhados de… água. O empregado ficou surpreendido, mas, ou porque tivesse percebido a situação ou porque tivesse decidido assumir ele alguma comparticipação na «despesa», serviu o pedido e trouxe os pratos de camarão e de amendoim, acompanhados de … água. O pequeno comeu, deliciadamente, o camarão e o amendoim, e Jorge bebeu água. Esplanada da Pousada Moura


No final, perguntou ao empregado «se…era alguma coisa»?, tendo-lhe este respondido que «Não», não deixando de sorrir, ante o expediente ardiloso para atenuar a fome daquele miúdo, do qual nunca mais soube. Jorge agradeceu ao empregado, que já conhecia de vista e entre ambos nasceu uma relação de respeito e amizade cúmplices, desde esse dia.






(Fotos ext. do Livro Recordações de Moçambique, Carlos Alberto Vieira, Aletheia Ed.)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Vendedoras

Vendedoras, de E. Loureiro (in Lourenço Marques, edição da Direcção de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique).


Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XVIII) – Uma infância africana (2.ª parte)

Também há que recordar alguns dos empregados mais relevantes da sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª.

O decano empregado da Casa Reis era Juma Martade, que fora admitido ainda antes do início da sociedade, por Domingos dos Reis, ancião respeitado e respeitável e figura influente no meio laboral das diversas firmas comerciais do centro da cidade, cujos empregados o consultavam quando havia conflitos e crispações com o patronato. Na firma Domingos dos Reis & Sobrinho já tinha um estatuto praticamente honorífico, apresentando-se no local de trabalho e supervisionando algumas tarefas de outros empregados.


É justo lembrar, ainda, as empregadas Dália, Mabília e Ivone Rente, que trabalharam durante algum tempo na firma. Juma Martade


Eugénio José Moreno foi um empregado que rapidamente se destacou e mereceu a confiança de José dos Reis Bravo, que observou nele dotes de inteligência, disciplina, ambição e capacidade de organização. Propôs-lhe que tirasse o Curso Nocturno de Contabilidade e Técnica Comercial na Escola Industrial e Comercial Neutel de Abreu, o que fez com bom aproveitamento. Sempre foi um empregado protegido e da maior confiança. É actualmente quadro de destaque numa empresa em Nacala-Porto. Eugénio José Moreno

Para além do sistema de ensino formal e institucional, Jorge aprendeu muito com o que hoje pode, com propriedade, chamar a “trindade de sabedoria africana», composta pelos seus três “mestres macuas”, Jumah Martade (o mais antigo e fiel empregado da Casa Reis), Roque (capataz do armazém da firma Zuid) e Ismaíl Sabur (mainato e cozinheiro da família). Os dois primeiros, mais velhos (“cocuanas”), e o terceiro eram repositórios de sabedoria oral, que Jorge gostava de escutar depois do almoço, na tranquila hora da «sesta» e na pausa do trabalho deles.


Aspecto parcial de Nampula



Todos eles eram muçulmanos, sendo Ismaíl, inclusivamente, uma espécie de auxiliar do imã da mesquita do seu bairro. Talvez fosse esse exotismo que atraía Jorge, ao “beber” as palavras das histórias daqueles dois anciãos e de Ismaíl, os quais não mostravam especial contemplação com as suas asneiras e pequenas traquinices infantis.

Censuravam-no e exortavam-no a respeitar “os madalas” (os velhos) porque isso era um valor sagrado para a sua cultura. As suas conversas não eram só sobre religião, versando muitos outros assuntos, como os costumes e tradições nativos, aspectos da história oral africana, a fauna e flora da região, a caligrafia árabe (por eles dominada, nos seus estudos religiosos), os acontecimentos da Província, a actualidade da guerra colonial, a situação social e laboral dos negros nativos.

Formavam uma roda, geralmente no corredor de acesso ao armazém da Zuid, em que fumavam cigarros Havana (de que Jumah se abastecia, por ter a prerrogativa de não pagar o tabaco na Casa Reis) e aos quais se juntavam outros trabalhadores de empresas vizinhas na hora da pausa de trabalho. Apesar de falarem em macua, tinham a gentileza de traduzir para português o que Jorge não compreendia. Esses ensinamentos e aprendizagens contribuíram inconscientemente, mas de forma decisiva, para a formação da personalidade de um rapazito curioso. Os irmãos na piscina de maré da Ilha de Moçambique


José e Maria Vitória sempre fizeram questão de inculcar nos filhos o respeito por todas as pessoas, independentemente da raça, religião, profissão ou estatuto sócio-económico, o que era apanágio do próprio relacionamento comercial da Casa Reis, que não estabelecia qualquer tipo de descriminação entre os seus clientes. Acima de tudo, vigorava uma lógica de respeito geral pela condição de todas as pessoas, incentivando o convívio com colegas de todas as raças e condições sociais e económicas, o que se traduzia na prática quotidiana da vida escolar, desportiva e social dos irmãos António e Jorge.

José dos Reis Bravo, com cliente, no estabelecimento


José dos Reis Bravo, com dois filhos de trabalhadores da machamba dos amigos José e Maria Ricardo

sábado, 8 de outubro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XVII) – Uma infância africana

Em Setembro de 1964 junta-se à família, em Nampula, José Manuel Roxo de Almeida, irmão de Maria Vitória, que fora contratado para trabalhar no Banco Nacional Ultramarino, o qual ficou, naturalmente, instalado na casa da família, passando a ser um membro integrante do agregado familiar, quase um irmão mais velho dos sobrinhos. A sua presença constituiu sempre um apoio amigo e disponível para os sobrinhos, que nele reconhecem o exemplo de dedicação e interesse pela sua formação e instrução, que ajudou a completar.





Maria Vitória, José Manuel e os irmãos Jorge e António




Após o nascimento dos dois filhos mais velhos (o terceiro viria a nascer em 1972), o casal Reis Bravo, que estava já integrado no meio comercial de Nampula, procurou sempre que os mesmos tivessem as experiências normais dos rapazes da Província, na época. Para além de outras amizades já solidamente estabelecidas, deve salientar-se a da família composta por José Miguel Morgado (futuro reitor do Liceu de Nampula e Presidente da Câmara Municipal) e Maria Dulce Morgado, que foi professora primária de Jorge, e com quem sempre mantiveram relacionamento de grande amizade. Muitos outros amigos – alguns já falecidos – integravam o seu círculo de relacionamento social, no qual se incluíam Dégio (desenhador técnico municipal) e Ju Moutinho (da Pendray & Sousa) e seu filho Luís, Arnaldo Constantino e família, a família Nazaré (da Espingardaria Nazaré), a família Marcelino e Luísa Cruz (contabilistas) e seus filhos. Os irmãos em Angoche, em 1967


A escolaridade de António (Tó) e Jorge foi nas Escolas Primárias Roberto Ivens e Pêro da Covilhã, tendo Jorge feito a 3.ª classe em Castelo Branco, onde esteve com os avós, por motivos de saúde, onde teve como mestre o saudoso Professor Tomé, na Escola do Bairro do Cansado.
É de evidenciar a qualidade do ensino nessa época ministrada, sendo de elementar justiça realçar o magistério das professoras Maria Dulce Morgado e Fernanda Louçã, cuja metodologia de trabalho e dedicação aos alunos ficaram como exemplo para Jorge. De sublinhar, ainda, a orientação que Jorge tinha com a Professora Lizete Matias (irmã da Professora fernanda Louça e esposa do Director Escolar, Dr. Matias), por ser colega do filho, Francisco Matias, e com ele estudar e brincar em conjunto.



Os irmãos e Liró


As Férias de família eram passadas quase invariavelmente na praia das Chocas e os tempos livre de fim-de-semana, na piscina do Ferroviário. Os irmãos na Piscina do Clube Ferroviário


Podem também recordar-se professores do então chamado Ciclo Preparatório – que funcionava na Escola (Técnica) Industrial e Comercial Neutel de Abreu –, como o professor Hermínio Cruz (Matemática), os Mestres Kay e Pereirinha (Trabalhos Manuais), o Professor Vamona Sinai Navelcar (Desenho) – conhecido como “Ganesh” nos circuitos internacionais das Artes Plásticas –, artista de enorme talento, o Professor Aristides Abreu (Francês), que muita influência tiveram na instrução e na formação integral (técnica, artística e humana) dos irmãos. Já no Liceu Gago Coutinho, não seria legítimo esquecer a Professora Gulbano (Geografia) e os Professores Câmara Pestana (Ed. Física) e esposa, Maria da Luz (Francês).

O sistema de ensino, na época, não era inclusivo, não providenciando escolarização à grande maioria das crianças nativas. Havia, é certo, colegas negros nas escolas da cidade, que eram sobretudo filhos de operários especializados (sobretudo dos Caminhos de Ferro e firmas da cidade), de enfermeiros, de funcionários da administração, os quais, apesar de integrados, eram uma minoria. A escolarização das camadas da população nativa era feita maioritariamente nas Escolas das Missões católicas e protestantes, e nos Seminários e, no tocante a escalões etários superiores, nos Cursos Nocturnos, que eram ministrados na Escola Técnica Neutel de Abreu.
A família no Parque Felgueiras e Sousa



António e Jorge nunca foram especialmente cumpridores dos deveres (voluntários) da Mocidade Portuguesa, que vela, canoismo, parquedismo, ténis de mesa e outras) que, apesar de tudo, revestiam inequívoco interesse para a formação integral dos jovens. Porém, as atenções da altura eram dirigidas para outros domínios e havia que contar, também, com a “concorrência” do Corpo Nacional de Escutas, que despertou a preferência dos irmãos, sendo ambos «lobitos» no Agrupamento da Paróquia, do Chefe Petim, tendo Jorge chegado a ser "Chefe de Alcateia" e vindo António a manter-se ligado até hoje, como dirigente, ao CNE.



Os «lobitos» António, "Kiko" e Jorge, junto à Casa Reis

A prática de diversos desportos era uma constante, desde o futebol, passando pelo ténis e ténis de mesa, ao Minibasket, desporto na época, em fase de implantação e que mereceu logo a adesão de Jorge, em várias equipas, algumas orientadas pelo saudoso treinador “Bic” e pelo treinador-adjunto “Frank”.


A brilhante equipa de Minibasket, treinada por mestre "Bic" e pelo adjunto "Frank", no Pavilhão de Desportos do Clube Ferroviário; sentados, da esquerda para a direita, Mário Lisboa (depois jogador e treinador da mais alta craveira, em Moçambique e em Portugal), Carlos Conceição, Márito Marta da Cruz (mascote), Zé Duro, Rui Pratas Ribeiro; de pé, João Carlos ("Russo"), Júlio (Lito) Peixe, Fernando (Nandocas) Marta da Cruz, mestre "BIC", Jorge Bravo, Carlos Osório de Castro e "Frank", treinador-adjunto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Ilhas




«Ninguém, em verdade, viaja para uma ilha. As ilhas existem dentro de nós, como um território sonhado, como um pedaço do nosso passado que se soltou do tempo».




{Mia Couto}

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para a história da aviação em Moçambique

CR-ADH


CR-ADG


O voando em moçambique publicou imagens dos aviões CR-ADG, CR-ADH e CR-ADM, que se encontravam nos albuns familiares.

Ficam estes dois exemplares.

domingo, 25 de setembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XVI) – O quotidiano de uma família nos Anos 60 em Moçambique (parte 1.ª)

Não era, apesar de tudo, fácil a adaptação a África nos anos 50 do século passado, para um europeu que nunca ali estivera, para mais uma jovem oriunda de uma cidade de província em Portugal. Maria Vitória deparou-se com dificuldades diversas, desde o clima, passando pela gestão da nova casa, até algumas preocupações com o desempenho de tarefas no auxílio do marido, José dos Reis Bravo, no âmbito comercial.Maria Ricardo, Maria Vitória e José Ricardo.

Nesse período de instalação, foram muito apoiados pelo já atrás mencionado casal composto por José e Maria Ricardo, pessoas com larga experiência da colónia e que, praticamente, por não terem filhos, quiseram tornar-se figuras tutelares de José Bravo e Maria Vitória. D. Maria Ricardo considerava-se mesmo a «mãe africana» de Maria Vitória. O senhor José Ricardo era uma individualidade invulgarmente avançada para a época. Era um casal que explorava uma machamba, nos arredores de Nampula (perto do Bairro da Namutequeliua). Para além de ser fervoroso vegetariano, defendendo já uma peculiar relação de harmonia entre o Homem e o meio envolvente (com conceitos algo datados, mas cuja essência era eminentemente ecológica), empregava nativos e com eles estabelecia um relacionamento bem diferenciado do que era comum nas demais explorações, advogando a escassa utilização de fertilizantes químicos no cultivo dos produtos agrícolas. Baptizado de António José, na catedral de Nampula, onde se reconhece, além dos pais, o casal Ricardo.

O primeiro filho do casal José e Maria Vitória, António José, nasceu praticamente um ano após o seu casamento, no dia 26 de Abril de 1958 (dia de aniversário de José dos Reis Bravo). Maria Vitória teve o seu primeiro filho na Casa de Saúde do Marrere, para onde foi transportada de táxi, pelas 06h00. José dos Reis Bravo só ao final da tarde voltou à Casa de Saúde, de lambreta (seu meio de transporte, na época), fazendo cerca de 10 Kms em picada. Porém, tudo decorreu com normalidade.
Apesar de os seus padrinhos serem a sua avó Laura e o tio-avô António, o casal Ricardo quis figurar como "padrinhos por procuração” (dado aqueles se encontrarem na metrópole).

Maria Vitória e António José, no estabelecimento Casa Reis.

António José, com tambor, próximo do Volvo do senhor Tito Martins, proprietário da ourivesaria ao lado da Casa Reis.



Passados dois anos, em 9 de Agosto de 1960, nasce o segundo filho do casal, Jorge Manuel, também na Casa de Saúde do Marrere, da qual – curiosamente, como se narrará adiante –, José dos Reis Bravo veio a ser Provedor, anos mais tarde. Também por ocasião do nascimento desse filho, o casal Ricardo quis acompanhar de perto o processo, estando presente no baptizado, sendo, no entanto, os padrinhos os avós maternos do novo bebé, Irene e Manuel.

António e Jorge, comprando amendoim ("torrado") a um vendedor ambulante.


O início da luta armada (Guerra de Libertação/Guerra Colonial) em Moçambique fez o casal José e Maria Vitória ponderar um regresso à metrópole, temporário ou definitivo, de forma a não expor os filhos a riscos desnecessários. No entanto, a evolução do processo bélico, com o confinamento das zonas de combate, e o facto de Nampula ser o Quartel-General das Forças Armadas na Província, fez com que na região nunca tivesse havido confrontos que inspirassem preocupações excessivas.


José dos Reis Bravo e o filho Jorge

O casal permanece em Moçambique com os filhos, e a vida prossegue com a normalidade do quotidiano de um auge de sistema colonial, que experimentaram. Para o melhor e para o pior.



José dos Reis Bravo e os filhos, frente ao estabelecimento Casa Reis

O território conhecia, então, um processo de desenvolvimento urbano, agrícola, industrial, viário e de transportes, que se desenrolava a um ritmo assinalável. Nampula torna-se um centro urbano progressivo, com equipamentos que permitiam uma qualidade de vida de excepção, evidentemente não extensivo a todos os cidadãos, nomeadamente os nativos africanos, que só marginalmente beneficiaram desse desenvolvimento.


Aspecto parcial de Nampula, em inícios dos anos 60 do séc. passado (foto ext. do Livro Recordações de Moçambique, Carlos Alberto Vieira, Aletheia Ed.).

Em 1964, o regime colonial orgulhava-se de apresentar o primeiro (e, pensa-se que único) Presidente da Câmara Municipal negro, o depois deputado Pedro Baessa (entre 1969 e 1973), de pai cabo-verdiano (Pedro Baessa, sénior), intérprete na batalha de Marracuene, nas campanhas de pacificação de Caldas Xavier, e de mãe moçambicana (e cuja filha, Lizete Baessa, «a Tia Preta, de Chelas» morreu em Lisboa, em Julho de 2011). Esta é, também uma homenagem a esse homem singular, que viveu servindo, à sua maneira, o seu povo, sem olhar a etnias, credos ou posses.




Pedro Baessa, Presidente da Câmara Municipal de Nampula e deputado à Assembleia Nacional (entre 1969 e 1973).

sábado, 24 de setembro de 2011

O Regresso dos Lusíadas

Vela parda, barca sem leme
ao leme da aventura desventurada,
à praia original regressamos: granito
e basalto, livor de estátuas perfiladas,
friagem do sono sem sonhos

As chagas do tempo e da febre,
as cicatrizes da ausência e do olvido,
emprestam à madeira ardida
dos rostos a pintura de estrangeiros.
Incómoda memória sangrada

em silêncio, ao longo da noite perplexa,
à praça original regressamos:
surda e endurecida no gosto
da cobiça, não concede a pátria
o favor que havia de acender

o engenho. E a magra tença,
se mal resguarda o corpo enfermo,
menos guarda o inverno da alma.
Em cinzas e sombras no abismo
baixaremos: esconjuros e autos-de-fé

não logram corromper a árdua
incomburência do testemunho
que somos; mais que a fria
laje da hipocrisia, durará
o remorso desta voz enrouquecida.

{Rui Knopfli, A Ilha de Próspero}

sábado, 17 de setembro de 2011

Um Presidente da CMIM visionário

Uma ponte entre a Ilha de Moçambique e o continente foi sempre um sonho das populações da Ilha e dos residentes em terra firme. O presidente da Câmara Municipal da Ilha de Moçambique António de Oliveira (abaixo caricaturado por Vilela) teve o propósito de empreender esse projecto, que não foi possível no decurso da sua gestão.
O presidente António de Oliveira, caricaturada no jornal «Notícias».
A ponte do Prof. Engenheiro Edgar Cardoso, aquando da sua inauguração.
Só na segunda metade da década de 60 do século passado o Professor Engenheiro Edgar Cardoso projectou a ponte que foi executada e inaugurada em 1967, e que lá se mantém, após ter sido reabilitada entre 2004 e 2006, tendo-se optado por localizá-la ligeiramente a Sul e ligando-a ao Lumbo.
Actualmente continua a ser o principal acesso à Ilha.
Convém esclarecer que a ponte, por se não prever um especial acréscimo de tráfego, tem uma faixa de rodagem com uma única «via de trânsito», tendo refúgios laterais para permitir o cruzamento de veículos.

«Mulheres de Camilo»

«Mulheres de Camilo», até 31 de Outubro de 2011
Centro de Exposições Cónego Cândido Pedrosa
(Casa das Estampas)
Bom Jesus do Monte - Braga.

«Mulheres, ainda que sejam primas, foram, são, e hão-de ser, cada vez mais, a máxima formosura deste planeta. Se as tiram de cá, isto é imundo, a vida é um desterro, e vaidade, o coração, a bravura, o talento, a glória são palavras sem significação. O que restaria? Um enxame de bípedes, agatinhando numa bola feiamente achatada para os polos, cousa ridícula, que fez dar risadas estrondosas àquele Micromegas, habitante da estrela Sírio, de que fala Voltaire».


{Camilo Castelo Branco, Duas horas de leitura}

domingo, 11 de setembro de 2011

Museus da Ilha de Moçambique

A ponte cais foi restaurada. A praça em frente ao Museu (ex-palácio do Governador e ex-Colégio dos Jesuítas) está arranjada.
Que melhor destino?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Série Askari (20)

Askaris do Império colonial alemão (África Oriental - Tanganica)

domingo, 4 de setembro de 2011

Gente da Colónia - O Senhor Raposo


Caricatura do Senhor Carlos Ferreira Raposo, por Vilela.

Na «Breve memória familiar e comercial da África Oriental Portuguesa» já por mais de uma vez tivemos oportunidade de falar no Senhor Raposo, dono de Hotéis na Ilha de Moçambique, no Lumbo e em Nampula.
Trata-se de Carlos Ferreira Raposo, que foi sogro de Domingos dos Reis, aqui caricaturado em edição do jornal «Notícias», por Vilela (não sendo possível recuperar a data; a referência ao ano de 1932 deve reportar-se ao estabelecimento do Senhor Raposo em Moçambique).

Hotel Raposo (e Café Nacional) em Nampula.


Os seus hotéis foram importantes equipamentos no apoio à fase inicial do estabelecimento de centenas de colonos que demandavam a então colónia de Moçambique, bem como de turistas, passageiros e tripulações de muitos navios que faziam escala no porto da Ilha de Moçambique (fundeando ao largo).


Hotel do Lumbo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Série Askari (19)

Soldados auxiliares do contingente regular de Moçambique (1948), que podem considerar-se askaris do Império colonial português (África Oriental Portuguesa).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Raso Olimpo

«Neste raso Olimpo argamassado em febre e coral, o Deus maior sou eu»





{Rui Knopfli}



Foto © de Belinha Morgado .

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Série askari (18)

Askaris do Império britânico (África oriental inglesa).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XV) – O casamento de José dos Reis Bravo e de Maria Vitória Roxo de Almeida

Maria Vitória, em Castelo Branco.


José dos Reis Bravo retomou o trabalho, agora como sócio-gerente da sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª, naturalmente, com acrescidas responsabilidades emergentes do facto de o tio Domingos se ter ausentado para a metrópole e, por outro lado, de ter de preparar as condições para receber Maria Vitória em Nampula.

José dos Reis Bravo, à porte do estabelecimento Casa Reis.
O namoro, foi praticamente telefónico e por correspondência, em que os noivos combinavam e acertavam pormenores da futura vida em comum. O casamento foi celebrado “por procuração”, como então era frequente. Foto do casamento de Maria Vitória, em Castelo Branco

Casam no dia 28 de Abril de 1957, José dos Reis Bravo em Nampula, e Maria Vitória em Castelo Branco. Dos eventos não há praticamente reportagens fotográficas; em Nampula, José dos Reis Bravo registou o dia em convívio com amigos. Maria Vitória assinalou o evento em família, tendo comparecido o tio Domingos e demais família do noivo em Castelo Branco, onde a família de Maria Vitória o havia preparado. O tio Domingos documentou o momento em máquina fotográfica nova, adquirida no Egipto, aquando da sua viagem para a metrópole, não evitando que, no manuseamento, inadvertidamente “entrasse luz”, danificando irremediavelmente o rolo e a possibilidade de revelação das fotografias. Apenas sobraram algumas fotografias posteriores à celebração da missa, já na casa do Tio António Venâncio e da Tia Céu.

José dos Reis Bravo e Maria Vitória, juntos em Nampula, na Avenida da Catedral (actual Av. Eduardo Mondlane).

Maria Vitória embarca para África, no que iria ser a sua primeira viagem para longe da casa dos pais e irmão. Iniciou a viagem em 22 de Maio de 1957, tendo feito escala em Lourenço Marques, onde ficou alguns dias junto dos tios José Venâncio Leão (Conselho de Câmbios) e Clara Roxo Leão (professora), e com os primos que aí estavam, Mercedes, Maria de Lurdes e António Leão (engenheiro civil, ainda hoje residente em Maputo), bem como junto dos tios José Morgado (Caminhos de Ferro de Moçambique) e Maria José Roxo Morgado (Tia que ainda hoje vive em Maputo) e dos primos João, Jorge e Rui Morgado, instalados em Inhambane. Essa pausa constituiu uma forma de suavizar o impacto com a novidade e a estranheza do meio que iria encontrar, sendo inteirada por esses familiares sobre aspectos práticos, como a prevenção contra a malária e outras doenças, fornecendo-lhe indicações preciosas no sentido de se situar no Moçambique de então, só possíveis pela enriquecedora experiência que todos tinham entretanto adquirido na Província, quer pelas posições e funções que desempenhavam, quer pelo conhecimento dos desenvolvimentos que a Província registava.


Só um mês após o casamento chegou a Nampula, exactamente no dia 28 de Maio de 1957, dia assinalado com festejos do «Estado Novo».

Aspecto exterior da Casa Reis, en Nampula.


Os noivos reencontram-se, agora, num novo meio, no qual se teriam de integrar. Ficam instalados numa residência no andar por cima do estabelecimento da Casa Reis, que fora preparada convenientemente por José dos Reis Bravo e a adaptação de Maria Vitória foi gradual, passando a colaborar com o marido na gestão do estabelecimento, integrando o quadro dos trabalhadores da sociedade.

O casal de agricultores José e Maria Ricardo, proprietários de uma “machamba” (exploração agro-pecuária) nos arredores de Nampula, são o amparo nessa fase inicial da estadia de Maria Vitória em Nampula. José Ricardo era uma pessoa com uma visão avançada no tempo (para a época), sendo vegetariano, defendendo uma forma de vida ligada à Natureza, a qual entendia que devia ser vista com todo o respeito, devendo servir apenas no limite estritamente necessário as necessidades humanas. Era raro José Ricardo vir à cidade, o que era assegurado por D. Maria, e o ambiente da sua exploração era mais comunitário do que nas outras, sendo a mesma fonte de abastecimento dos trabalhadores. Maria Vitória e José dos Reis Bravo no interior do estabelecimento Casa Reis.


Naturalmente que muitas outras relações sociais e de amizade foram estabelecidas pelo casal, para além dos amigos que José dos Reis Bravo já fizera e que passaram a relacionar-se, agora, com o casal. Foi esse o contexto do início de vida de casados da Maria Vitória e José dos Reis Bravo em Nampula.