quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para a história da aviação em Moçambique

CR-ADH


CR-ADG


O voando em moçambique publicou imagens dos aviões CR-ADG, CR-ADH e CR-ADM, que se encontravam nos albuns familiares.

Ficam estes dois exemplares.

domingo, 25 de setembro de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XVI) – O quotidiano de uma família nos Anos 60 em Moçambique (parte 1.ª)

Não era, apesar de tudo, fácil a adaptação a África nos anos 50 do século passado, para um europeu que nunca ali estivera, para mais uma jovem oriunda de uma cidade de província em Portugal. Maria Vitória deparou-se com dificuldades diversas, desde o clima, passando pela gestão da nova casa, até algumas preocupações com o desempenho de tarefas no auxílio do marido, José dos Reis Bravo, no âmbito comercial.Maria Ricardo, Maria Vitória e José Ricardo.

Nesse período de instalação, foram muito apoiados pelo já atrás mencionado casal composto por José e Maria Ricardo, pessoas com larga experiência da colónia e que, praticamente, por não terem filhos, quiseram tornar-se figuras tutelares de José Bravo e Maria Vitória. D. Maria Ricardo considerava-se mesmo a «mãe africana» de Maria Vitória. O senhor José Ricardo era uma individualidade invulgarmente avançada para a época. Era um casal que explorava uma machamba, nos arredores de Nampula (perto do Bairro da Namutequeliua). Para além de ser fervoroso vegetariano, defendendo já uma peculiar relação de harmonia entre o Homem e o meio envolvente (com conceitos algo datados, mas cuja essência era eminentemente ecológica), empregava nativos e com eles estabelecia um relacionamento bem diferenciado do que era comum nas demais explorações, advogando a escassa utilização de fertilizantes químicos no cultivo dos produtos agrícolas. Baptizado de António José, na catedral de Nampula, onde se reconhece, além dos pais, o casal Ricardo.

O primeiro filho do casal José e Maria Vitória, António José, nasceu praticamente um ano após o seu casamento, no dia 26 de Abril de 1958 (dia de aniversário de José dos Reis Bravo). Maria Vitória teve o seu primeiro filho na Casa de Saúde do Marrere, para onde foi transportada de táxi, pelas 06h00. José dos Reis Bravo só ao final da tarde voltou à Casa de Saúde, de lambreta (seu meio de transporte, na época), fazendo cerca de 10 Kms em picada. Porém, tudo decorreu com normalidade.
Apesar de os seus padrinhos serem a sua avó Laura e o tio-avô António, o casal Ricardo quis figurar como "padrinhos por procuração” (dado aqueles se encontrarem na metrópole).

Maria Vitória e António José, no estabelecimento Casa Reis.

António José, com tambor, próximo do Volvo do senhor Tito Martins, proprietário da ourivesaria ao lado da Casa Reis.



Passados dois anos, em 9 de Agosto de 1960, nasce o segundo filho do casal, Jorge Manuel, também na Casa de Saúde do Marrere, da qual – curiosamente, como se narrará adiante –, José dos Reis Bravo veio a ser Provedor, anos mais tarde. Também por ocasião do nascimento desse filho, o casal Ricardo quis acompanhar de perto o processo, estando presente no baptizado, sendo, no entanto, os padrinhos os avós maternos do novo bebé, Irene e Manuel.

António e Jorge, comprando amendoim ("torrado") a um vendedor ambulante.


O início da luta armada (Guerra de Libertação/Guerra Colonial) em Moçambique fez o casal José e Maria Vitória ponderar um regresso à metrópole, temporário ou definitivo, de forma a não expor os filhos a riscos desnecessários. No entanto, a evolução do processo bélico, com o confinamento das zonas de combate, e o facto de Nampula ser o Quartel-General das Forças Armadas na Província, fez com que na região nunca tivesse havido confrontos que inspirassem preocupações excessivas.


José dos Reis Bravo e o filho Jorge

O casal permanece em Moçambique com os filhos, e a vida prossegue com a normalidade do quotidiano de um auge de sistema colonial, que experimentaram. Para o melhor e para o pior.



José dos Reis Bravo e os filhos, frente ao estabelecimento Casa Reis

O território conhecia, então, um processo de desenvolvimento urbano, agrícola, industrial, viário e de transportes, que se desenrolava a um ritmo assinalável. Nampula torna-se um centro urbano progressivo, com equipamentos que permitiam uma qualidade de vida de excepção, evidentemente não extensivo a todos os cidadãos, nomeadamente os nativos africanos, que só marginalmente beneficiaram desse desenvolvimento.


Aspecto parcial de Nampula, em inícios dos anos 60 do séc. passado (foto ext. do Livro Recordações de Moçambique, Carlos Alberto Vieira, Aletheia Ed.).

Em 1964, o regime colonial orgulhava-se de apresentar o primeiro (e, pensa-se que único) Presidente da Câmara Municipal negro, o depois deputado Pedro Baessa (entre 1969 e 1973), de pai cabo-verdiano (Pedro Baessa, sénior), intérprete na batalha de Marracuene, nas campanhas de pacificação de Caldas Xavier, e de mãe moçambicana (e cuja filha, Lizete Baessa, «a Tia Preta, de Chelas» morreu em Lisboa, em Julho de 2011). Esta é, também uma homenagem a esse homem singular, que viveu servindo, à sua maneira, o seu povo, sem olhar a etnias, credos ou posses.




Pedro Baessa, Presidente da Câmara Municipal de Nampula e deputado à Assembleia Nacional (entre 1969 e 1973).

sábado, 24 de setembro de 2011

O Regresso dos Lusíadas

Vela parda, barca sem leme
ao leme da aventura desventurada,
à praia original regressamos: granito
e basalto, livor de estátuas perfiladas,
friagem do sono sem sonhos

As chagas do tempo e da febre,
as cicatrizes da ausência e do olvido,
emprestam à madeira ardida
dos rostos a pintura de estrangeiros.
Incómoda memória sangrada

em silêncio, ao longo da noite perplexa,
à praça original regressamos:
surda e endurecida no gosto
da cobiça, não concede a pátria
o favor que havia de acender

o engenho. E a magra tença,
se mal resguarda o corpo enfermo,
menos guarda o inverno da alma.
Em cinzas e sombras no abismo
baixaremos: esconjuros e autos-de-fé

não logram corromper a árdua
incomburência do testemunho
que somos; mais que a fria
laje da hipocrisia, durará
o remorso desta voz enrouquecida.

{Rui Knopfli, A Ilha de Próspero}

sábado, 17 de setembro de 2011

Um Presidente da CMIM visionário

Uma ponte entre a Ilha de Moçambique e o continente foi sempre um sonho das populações da Ilha e dos residentes em terra firme. O presidente da Câmara Municipal da Ilha de Moçambique António de Oliveira (abaixo caricaturado por Vilela) teve o propósito de empreender esse projecto, que não foi possível no decurso da sua gestão.
O presidente António de Oliveira, caricaturada no jornal «Notícias».
A ponte do Prof. Engenheiro Edgar Cardoso, aquando da sua inauguração.
Só na segunda metade da década de 60 do século passado o Professor Engenheiro Edgar Cardoso projectou a ponte que foi executada e inaugurada em 1967, e que lá se mantém, após ter sido reabilitada entre 2004 e 2006, tendo-se optado por localizá-la ligeiramente a Sul e ligando-a ao Lumbo.
Actualmente continua a ser o principal acesso à Ilha.
Convém esclarecer que a ponte, por se não prever um especial acréscimo de tráfego, tem uma faixa de rodagem com uma única «via de trânsito», tendo refúgios laterais para permitir o cruzamento de veículos.

«Mulheres de Camilo»

«Mulheres de Camilo», até 31 de Outubro de 2011
Centro de Exposições Cónego Cândido Pedrosa
(Casa das Estampas)
Bom Jesus do Monte - Braga.

«Mulheres, ainda que sejam primas, foram, são, e hão-de ser, cada vez mais, a máxima formosura deste planeta. Se as tiram de cá, isto é imundo, a vida é um desterro, e vaidade, o coração, a bravura, o talento, a glória são palavras sem significação. O que restaria? Um enxame de bípedes, agatinhando numa bola feiamente achatada para os polos, cousa ridícula, que fez dar risadas estrondosas àquele Micromegas, habitante da estrela Sírio, de que fala Voltaire».


{Camilo Castelo Branco, Duas horas de leitura}

domingo, 11 de setembro de 2011

Museus da Ilha de Moçambique

A ponte cais foi restaurada. A praça em frente ao Museu (ex-palácio do Governador e ex-Colégio dos Jesuítas) está arranjada.
Que melhor destino?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Série Askari (20)

Askaris do Império colonial alemão (África Oriental - Tanganica)

domingo, 4 de setembro de 2011

Gente da Colónia - O Senhor Raposo


Caricatura do Senhor Carlos Ferreira Raposo, por Vilela.

Na «Breve memória familiar e comercial da África Oriental Portuguesa» já por mais de uma vez tivemos oportunidade de falar no Senhor Raposo, dono de Hotéis na Ilha de Moçambique, no Lumbo e em Nampula.
Trata-se de Carlos Ferreira Raposo, que foi sogro de Domingos dos Reis, aqui caricaturado em edição do jornal «Notícias», por Vilela (não sendo possível recuperar a data; a referência ao ano de 1932 deve reportar-se ao estabelecimento do Senhor Raposo em Moçambique).

Hotel Raposo (e Café Nacional) em Nampula.


Os seus hotéis foram importantes equipamentos no apoio à fase inicial do estabelecimento de centenas de colonos que demandavam a então colónia de Moçambique, bem como de turistas, passageiros e tripulações de muitos navios que faziam escala no porto da Ilha de Moçambique (fundeando ao largo).


Hotel do Lumbo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Série Askari (19)

Soldados auxiliares do contingente regular de Moçambique (1948), que podem considerar-se askaris do Império colonial português (África Oriental Portuguesa).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Raso Olimpo

«Neste raso Olimpo argamassado em febre e coral, o Deus maior sou eu»





{Rui Knopfli}



Foto © de Belinha Morgado .

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Série askari (18)

Askaris do Império britânico (África oriental inglesa).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XV) – O casamento de José dos Reis Bravo e de Maria Vitória Roxo de Almeida

Maria Vitória, em Castelo Branco.


José dos Reis Bravo retomou o trabalho, agora como sócio-gerente da sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª, naturalmente, com acrescidas responsabilidades emergentes do facto de o tio Domingos se ter ausentado para a metrópole e, por outro lado, de ter de preparar as condições para receber Maria Vitória em Nampula.

José dos Reis Bravo, à porte do estabelecimento Casa Reis.
O namoro, foi praticamente telefónico e por correspondência, em que os noivos combinavam e acertavam pormenores da futura vida em comum. O casamento foi celebrado “por procuração”, como então era frequente. Foto do casamento de Maria Vitória, em Castelo Branco

Casam no dia 28 de Abril de 1957, José dos Reis Bravo em Nampula, e Maria Vitória em Castelo Branco. Dos eventos não há praticamente reportagens fotográficas; em Nampula, José dos Reis Bravo registou o dia em convívio com amigos. Maria Vitória assinalou o evento em família, tendo comparecido o tio Domingos e demais família do noivo em Castelo Branco, onde a família de Maria Vitória o havia preparado. O tio Domingos documentou o momento em máquina fotográfica nova, adquirida no Egipto, aquando da sua viagem para a metrópole, não evitando que, no manuseamento, inadvertidamente “entrasse luz”, danificando irremediavelmente o rolo e a possibilidade de revelação das fotografias. Apenas sobraram algumas fotografias posteriores à celebração da missa, já na casa do Tio António Venâncio e da Tia Céu.

José dos Reis Bravo e Maria Vitória, juntos em Nampula, na Avenida da Catedral (actual Av. Eduardo Mondlane).

Maria Vitória embarca para África, no que iria ser a sua primeira viagem para longe da casa dos pais e irmão. Iniciou a viagem em 22 de Maio de 1957, tendo feito escala em Lourenço Marques, onde ficou alguns dias junto dos tios José Venâncio Leão (Conselho de Câmbios) e Clara Roxo Leão (professora), e com os primos que aí estavam, Mercedes, Maria de Lurdes e António Leão (engenheiro civil, ainda hoje residente em Maputo), bem como junto dos tios José Morgado (Caminhos de Ferro de Moçambique) e Maria José Roxo Morgado (Tia que ainda hoje vive em Maputo) e dos primos João, Jorge e Rui Morgado, instalados em Inhambane. Essa pausa constituiu uma forma de suavizar o impacto com a novidade e a estranheza do meio que iria encontrar, sendo inteirada por esses familiares sobre aspectos práticos, como a prevenção contra a malária e outras doenças, fornecendo-lhe indicações preciosas no sentido de se situar no Moçambique de então, só possíveis pela enriquecedora experiência que todos tinham entretanto adquirido na Província, quer pelas posições e funções que desempenhavam, quer pelo conhecimento dos desenvolvimentos que a Província registava.


Só um mês após o casamento chegou a Nampula, exactamente no dia 28 de Maio de 1957, dia assinalado com festejos do «Estado Novo».

Aspecto exterior da Casa Reis, en Nampula.


Os noivos reencontram-se, agora, num novo meio, no qual se teriam de integrar. Ficam instalados numa residência no andar por cima do estabelecimento da Casa Reis, que fora preparada convenientemente por José dos Reis Bravo e a adaptação de Maria Vitória foi gradual, passando a colaborar com o marido na gestão do estabelecimento, integrando o quadro dos trabalhadores da sociedade.

O casal de agricultores José e Maria Ricardo, proprietários de uma “machamba” (exploração agro-pecuária) nos arredores de Nampula, são o amparo nessa fase inicial da estadia de Maria Vitória em Nampula. José Ricardo era uma pessoa com uma visão avançada no tempo (para a época), sendo vegetariano, defendendo uma forma de vida ligada à Natureza, a qual entendia que devia ser vista com todo o respeito, devendo servir apenas no limite estritamente necessário as necessidades humanas. Era raro José Ricardo vir à cidade, o que era assegurado por D. Maria, e o ambiente da sua exploração era mais comunitário do que nas outras, sendo a mesma fonte de abastecimento dos trabalhadores. Maria Vitória e José dos Reis Bravo no interior do estabelecimento Casa Reis.


Naturalmente que muitas outras relações sociais e de amizade foram estabelecidas pelo casal, para além dos amigos que José dos Reis Bravo já fizera e que passaram a relacionar-se, agora, com o casal. Foi esse o contexto do início de vida de casados da Maria Vitória e José dos Reis Bravo em Nampula.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Esperança

Estudo de moçambicano, Rui Figueiredo.

Sabedoria

Moçambicano (por E. Loureiro), in Lourenço Marques, edição da Direcção de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Série Askari (17)

Banda de askaris do Império colonial alemão (África oriental), com oficial.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Série askari (16)

Askari (do Corpo de Polícia) do Império colonial alemão.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XIV) – A sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª

No final da estadia na metrópole, em que conhecera Maria Vitória, que viria a ser sua futura esposa, José dos Reis Bravo regressa a Nampula. Estávamos em inícios de 1956.
Ao voltar a África, o propósito era, naturalmente, o de continuar a trabalhar com o tio Domingos dos Reis, o qual o incentivara a fazer a visita à Mãe, Laura dos Reis, e demais família. No entanto, o tio Domingos tinha outros projectos. Pensara em retirar-se definitivamente de Moçambique e regressar com a esposa e filhas à metrópole. Porém, apesar de ter alguns colaboradores com quem já trabalhava há algum tempo, precisava de alguém em quem pudesse depositar a máxima confiança.
O sobrinho José dos Reis Bravo estava, segundo a sua avaliação, preparado e adquirira experiência necessária para a gestão dos negócios, que, entretanto, expandira: agência de lotarias, valores selados, jornais (de Moçambique e da metrópole) e revistas (APR), seguros, importação e exportação de bebidas, brindes, papelaria, livraria, gestão do parque imobiliário. Além da confiança que nele depositava, achava-o suficientemente responsável para, sozinho, ficar à frente da empresa, no que seria auxiliado pelos demais colaboradores, nativos e europeus, bem como pela esposa, quando a mesma fosse ao seu encontro.
Contudo, era necessário dar forma a essa colaboração; a formalização de uma sociedade por quotas foi a solução encontrada. A sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª foi formalizada em 27 de Abril de 1956; o objecto era o da “exploração de todas as operações comerciais” em que acordassem os sócios, com excepção do negócio bancário. Ambicioso. Como na África de então se podia ser. Rosto da escritura da sociedade Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª. Segunda página da escritura social, onde se pode ler o objecto da sociedade.



A sociedade ficou instalada no estabelecimento Casa Reis, edifício situado ao lado direito da sede da Zuid Afrikaansch Handelshuis, que partilhava com a Ourivesaria Tito Martins (que anos mais tarde cederia o espaço para a expansão do estabelecimento da Casa Reis a todo o rés-do-chão). A residência de José dos Reis Bravo seria no piso superior do estabelecimento.
Domingos dos Reis constata que a experiência corre bem e decide retirar-se definitivamente do território, reformando-se em Lisboa, e passando a ir periodicamente a Nampula, para se inteirar in loco do curso dos negócios.

José dos Reis Bravo Aspecto geral de Nampula.

Nampula tornara-se já uma promissora cidade, constituindo o epicentro de toda uma próspera e empreendedora região, o Norte de Moçambique, destacando-se o incremento nas culturas agrícolas de algodão, tabaco, sisal, cajú, chá, nas indústrias associadas, na agro-pecuária, bem como em muitas outras actividades comerciais e industriais, além do Ensino e do Comando Militar da Província.




Aspecto geral de Nampula.


No dia 19 de Setembro de 1956, o Jornal de Notícias de Moçambique, de que a firma Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª era agente no Distrito de Nampula, noticia o que se entendia ser uma viagem de férias da família do tio Domingos, à metrópole, via Canal do Suez e Itália. No entanto, era o que seria já a viagem de regresso. Definitivo.

"Notícias" de 19-09-1956.


Em Moçambique, permanece José dos Reis Bravo, ali continuando, de acordo com o firmado, a gestão dos negócios da sociedade.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Craveiro Lopes visita a Ilha de Moçambique


Encenação grandiosa de um Império em contra-corrente. A propaganda do Estado Novo era, porventura, mais ingénua e convicta. E bastante eficaz. Resultava grandiloquente a retórica da mais antiga potência colonial que resistia aos ventos da mudança, «orgulhosamente só».
Este é um documento notável.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Série askari (15)

Askaris do Império colonial alemão.

domingo, 17 de julho de 2011

José do Telhado escreve a Camilo Castelo Branco





Da correspondência recuperada de Camilo Castelo Branco










A José Eduardo Agualusa

Não era ainda hora do jantar, mas da cozinha evolava o cheiro de um souflé de bacalhau que apurava no forno. Camilo estava junto ao muro da propriedade, em S. Miguel de Seide, nos bancos de pedra em que costumava sentar-se a ler nas tardes de Verão com Ana Plácido. Ouviu o ferrolho a rodar e viu o rapaz do caseiro, Domingos, que trazia o correio entregue nessa manhã no hotel Vilanovense.
- Sua bênção, senhor D. Camillo, com permissão do senhor, aqui trago as cartas e revistas do correio.
- Entra, Domingos, já merendaste? Fila-te do bolo que a Joaquina fez e da fruta que quizeres, se é que não ficas para jantar, que tão bem cheira.
- Ná, senhor D. Camillo, o meu Paizinho espera-me para o ajudar nas dornas, antes das Avé-Marias. Por aqui lhe dou o correio; até logo e bem-haja.
Camillo agradeceu ao moço, dando-lhe as moedas que tinha na algibeira. Viu que o correio se compunha de revistas literárias, dos jornais do Porto da véspera e atentou numa carta maltratada, que se via ter sido dobrada, enrolada, manchada, cujas letras se deformaram. Mas era-lhe dirigida. O remetente era ilegível, apenas se lendo «…lanje – Angola». Seria de quem? De seu amigo Vieira de Castro ou de Zé do Telhado. Que tamanha ironia. Dois dos seus melhores amigos, que ele defendera, e sobre os quais escrevera, encontravam-se degredados na África Ocidental portuguesa.
Do lote de correspondência, foi a primeira carta que abriu, de forma resoluta e ansiosa. Era de José Teixeira da Silva, o famigerado aventureiro e salteador novelesco conhecido como Zé do Telhado. A carta estava escrita em letra grande, legível, espaçada. Felizmente, o sobrescrito protegera-a das humidades e nódoas que o marcavam por fora. Era este o seu teor, revelado, depois que foi encontrada em prateleira escondida da Casa de S. Miguel de Seide, por altura da remodelação do edifício:

«Excelentíssimo Senhor Camillo Castello Branco
Ilmo Visconde de Corrêa e Botelho
Mui talentoso e distinto escritor
S. Miguel de Seide

África Occidental portuguesa e Malanje, 14 de Julho de 1871

Esperando que a presente carta possa, sem contrariada demora ou extravio, chegar célere ao seu destinatário, porquanto deposito no seu portador enorme confiança, pretendo, por ella, fazer-lhe chegar as novas que hey por bem comunicar-lhe, Senhor Camillo. A carta foi expedida por um amigo que deixará Luanda no dia 21 próximo, em vapor que se prevê chegar a Leixões no dia 17 do próximo mês, de modo a encontrál-o ainda no Porto, antes de se dirigir a S. Miguel de Çeide. É ele o meu bom amigo capitão de fragata Emílio Magalhaens Roxo de Almeida, que conheci na malograda viagem que fiz para este degredo perpétuo em que me encontro, e que de muita valia se revelou, para além da amizade sincera que nos nutrimos de modo recíproco.
Relembrando as extraordinárias circunstâncias do nosso encontro, nesse ano de 1861, infausto para ambos, e correspondendo a solicitação de Vossa Excelência, quando juntos expiávamos responsabilidades mundanas na Cadeia da Relação do Porto, sou a honrál-o com notícias minhas e dos meus feitos actuaes.
Do que faço, por ora, nestes sertões dos confins do que chamam nosso Império das colónias, nada digno de fausto haverá a narrar, no que ao meu arranjo e labor pessoal diz respeito.
Estabelecido me encontro nesta vila de Malanje, que é pouco mais que projecto de aldeia, com posto administrativo, o presídio, o forte, oito casas de alvenaria e três dúzias de palhotas de nativos, que de pouco vivem, fazendo as suas lavras e delas tirando o que necessitam. Constituí família, tendo de minha mulher Conceição, já, três filhos varões. Prossigo, como saberá, o meu negócio de cera, bebidas e marfim.
Tenho-me, por isso, esforçado, por bons motivos, na actividade venatória de caça grossa, que é aqui coisa de grande empresa, sempre auxiliado por gente da família de minha nova mulher, que grande lealdade me vem demonstrando. O marfim é negócio que poderia ser bem mais rendoso, considerando o preço que as peças atingem na Flandres e Inglaterra, não fossem todos os intermediários que lucram o que não deviam.
Desta terra posso dizer que me tem sido agradável, tanto quanto é possível. Para além do grato bálsamo de uma família que, de novo, tive que constituir, devo confessar a minha admiração por esta gente nativa, que encontrei. Muitos destes gentios nunca viram brancos, sendo que me vêem como misto de curiosidade e ser sobrenatural. Têem ideas e conceitos muito simples, uns deles afirmando que de nada se importam de padecer nesta vida, porquanto após a morte, voltarão como brancos, para reviver o que de bom o Mundo tem para lhes dar.
Os cafres, embora sejam parcos em civilidade, não são bárbaros, no sentido nefasto do termo, tendo suas crenças e modo de pensar muito utilitários e voltados para a ingência do viver quotidiano, acreditando piamente nos oráculos dos feiticeiros e seus feitiços, com excepção de alguns que mais convivem com os missionários que estão vindo, diz-se, a evangelizar o território e os nativos.
Asseveram-me que, em tempos passados houve uma grande rainha Ginga, cujo exército heroicamente guerreou os nossos reis e seus representantes, passando depois a ser sua aliada.
Algumas vezes me perguntam, por missiva, os filhos que deixei no nosso torrão natal, que faço eu aqui no meio dos pretos, que me amancebei, inclusive, com uma (só depois do fallecimento de minha querida primeira esposa), sugerindo-me que me passe ao Brasil, onde se reuniriam commigo, ao que lhes respondo tal ser em contravenção à pena que recebi de degredo perpétuo para esta terra, a menos que quizesse, de novo, ficar sob a inclemente alçada da lei; sei, enfim, os meus deveres e minhas obrigações para com as auctoridades, não quero tornar a ser alvo de querellas e perseguições.
Se quer acreditar o que penso hoje no efeito da pena que recebi, aceito-a por boa e, não dizendo que me regenerei – pois me não senti nunca degenerado – o certo é que venho meditando nos meus feitos pelos quais fui condenado, e deles não me envaideço. Tenho-me tentado corrigir por mim, ajudando sempre os que mais precisam.
Houve ecos, aqui, de que o fidalgo Vieira de Castro, ao que julgo saber, seu grande amigo, terá assassinado a esposa, por infidelidade desta, e veio degredado para Angola, sem que eu saiba o sítio exacto do seu estabelecimento; farei por sabê-lo, a fim de poder valer-lhe, dentro das minhas pobres possibilidades.
No que ao seu pedido mais caro respeita, meu bom amigo, sobre palavras em uso pela população, que pudessem ser curiosas ou extravagantes, devo anunciar que as que registei não creio serem dignas de menção. De todo o modo aqui lhe deixo as que convenho em serem merecedoras de referência, do dialecto falado pelos nativos, que dizem ser língua quimbúndu:

Ndandu – significando abraço; kutondela – agradecer; kitololo – arrependimento; muxima – coração; sansuka – viver; kamba ria muxima – amigo do coração.

Do seu devotado e eterno admirador e kamba ria muxima
Para sempre ao dispor

José Teixeira da Silva» José do Telhado e seu irmão


Gravuras extraídas de Camilo Castelo Branco - Memórias Fotobiográficas (1825-1890), de José Viale Moutinho, Caminho, 2009.