sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hoje, uma árvore


Uma árvore
é uma prece
corporizando todas as liturgias
redimindo todas as indignidades
e há árvores
que são velhas como famílias
como nações coesas
são edifícios mais solenes
que as casas
ou as catedrais
onde se pode escutar
o trânsito das gerações
e o esvoaçar dos cânticos
ancestrais
e de sempre

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Máximas

Senhora viúva, interessante, procura cavalheiro culto e educado, mais de 45 anos, alto (mais de 1,80m), que saiba línguas estrangeiras e possua boa situação económica, para efeitos patrimoniais.

Cesária Évora - «Mar Azul»

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

quarta-feira, 25 de março de 2009

Máxima das prostitutas espanholas

«Follar en casa perjudica la prostitución, folla con nosotras».

O misterioso nascimento das palavras

No sempre misterioso nascimento das palavras
em que o dito
é significado de ancestrais
aprendizagens
irrompendo submissas
ou insolentes
sobre preconceitos
e inábeis preserveranças
iluminando de sentido
a rectidão da humanidade

sexta-feira, 20 de março de 2009

O «Negro» e o Mal

«(...) o Negro é a expressão embrionária do sentimento, e na sua rude incompreensão do dever e da dignidade faz parênteses em quase todos os princípios da nobilitação humana.
Com isto não queremos afiançar que ele pende por índole para o mal; somente supomos que exercita este por ignorância ou por desconhecer a sublimidade da prática do bem».

[H. Capelo e Roberto Ivens, De Angola à Contracosta].

sexta-feira, 6 de março de 2009

Manuel Hermínio Monteiro, urbano-pessimista antes do tempo

«Em Viana do Castelo o edifício Jardim é um escândalo no resto da cidade. Eis um caso de polícia. Vila Real é uma cidade amuralhada por torres (edifícios Miracorgo), interrompendo definitivamente o diálogo com a paisagem envolvente. Em Viseu uma torre veio estragar o velho casario encimado pela Sé e vê-se, paradoxalmente, promovida pelos folhetos turísticos locais. Lamego: entre o castelo e o conjunto da Senhora dos Remédios, um mar de cimento armado até aos dentes. Braga é o maior escândalo. uma das mais belas e a mais monumental das nossas cidades foi espatifada por irresponsáveis. Faro, e sobretudo, Portimão, é o que se sabe. Olhão: uma torre, pior que a de Viana, sobre as casas baixas da nossa cidade das açoteias. Setúbal, destruições imparáveis no Largo da feira. Por detrás da alta estátua de Bocage um brutal edifício (de quantos pisos?) cresceu, obstruindo-a. Aveiro sem mãos a medir até à Costa Nova. Bragança e Guarda, destruição definitiva de velhos mercados. para quê? Coimbra. o que se vê ao fundo da Ferreira Borges. E a Figueira da Foz a caminho de Buarcos? E a Póvoa de Varzim? Que se pretende fazer de Portugal?»

[Manuel Hermínio Monteiro, K, n.º 8, Maio de 1991]

Portugal era assim em 1991.
Em 2009, nem piedosos programas «Pólis», nem recuperações de zonas ribeirinhas, nem reabilitação de centros históricos, nem fundações para o desenvolvimento inverteram o panorama. Pelo contrário, parece que tudo se degradou de forma acelerada.

bmw, marca aziaga

O primeiro mau contacto com um veículo bmw, foi uma ultrapassagem perigosíssima pela esquerda, numa via rápida, em que só um "6.º sentido" acabou por me salvar a vida e a dos meus acompanhantes.
A seguir veio outra situação, que me pôs definitivamente avesso a essa marca de carros; foi quando um indivíduo que conduzia um veículo dessa marca embateu no meu velhinho opel astra e danificou o lado esquerdo traseiro. Sem ponta de razão, ainda teve a prosápia de dizer que «como o dele não tinha tido nada, eu nem podia provar que ele me tinha batido».
Por último, há bem poucos dias, um desses «charutos metálicos» passou a noite inteira a disparar o alarme avariado, à frente de minha casa. Ninguém acudiu. O dono nem estaria por perto, caso contrário teria aparecido, por ter acordado. Passei a noite sem pregar olho. telefonei para a PSP, mas disseram-me que «não podiam fazer nada; iam ver se identificavam o dono e dizer-lhe [certamente com grande reverência, tratava-se de um «bm»!] para resolver a situação». Rebocá-lo àquela hora, nem pensar, porque o reboque não operava à noite, nem tinham para onde levar o «canhangulo, para mais a apitar».
Depois, associo a marca aos "empresários" arrivistas e burgessos - sobretudo quando entram em dificuldades -, às suas mulheres analfabetas e pretensiosas, aos rapazelhos que os compram em 2.ª mão, para impressionar as miúdas dos shoppings, aos seguranças banhudos da noite. Não suporto essa fauna que costuma habitar e tripular os bmw´s, o que hei-de fazer?
É verdade. Não não acho o bmw particularmente conseguido, no que diz respeito à estética. Os modelos envelhecem e ficam definitivamente ultrapassados, sem o "glamour" de outros carros antigos. Dizem-me que, mecanicamente, «é do melhor». Não duvido. Mas confesso ter uma antipatia visceral por essa marca de carros.
Preferia que fosse uma das marcas a abrir falência.

quinta-feira, 5 de março de 2009

As casas da Ilha



As casas da Ilha
velhas casas
desabitadas
mas sobrelotadas
de metais remanchados
nesgas, fendas na pedra e cal
a ruína ao sol
e ao vento monçónico
enquanto o macúti resplandece
na pele lisa das raparigas
que deambulam
nas ruas planas da Ilha
que abrem todas para o mar
são casas velhas
com tanta gente
com tanta história
e o mar por dentro
da transparência
a falta de medo do mar
no crepúsculo
da Ilha, ao som macio das ondas
e do balanço suave das casuarinas

domingo, 1 de março de 2009

Darwin - 200 anos

«A esperança, a fé, a caridade, vivem do Matadouro Municipal onde bois e vitelos, santos e anjos são assassinados às centenas e repartidos em bifes pela macacaria darwinista».

[Teixeira de Pascoaes]

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Hai ku

destruo
o destro
destronado

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Ilha de Moçambique, de Ângelo de Sousa

«Vivi na Ilha de Moçambique até aos sete anos [...] Estava tão bem ali. A ilha era pequenina. Havia um automóvel do piloto Nunes, um Fiat pequenino. Tinha uma actividade desportiva razoável. Fazia-se teatro amador . Cinco mil pessoas contando com a população indígena. A escola primária tinha cem crianças.»

«A luz eléctrica, ligavam-na às seis da tarde e desligavam às onze da noite - tinham um gerador. As geleiras eram a petróleo. Não havia aspiradores. Não havia carne porque não havia gado; comia-se galinhas e coisas do mar. Costumo dizer com graça que fui criado a lagosta. Lagosta era ao preço do pão. E fruta: bananas, papaia, toda a gente tinha papaeiras em casa. Leite era condensado».

[Ângelo de Sousa, Pública, de 25.01.09]

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Alba

A Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves)


Poeta sem abrigo?
Qual quê! Só quem o não conhece
Poeta de todos os territórios
poeta da rua, sim
poeta vindo do nada
poeta da vida e da interpelação
poeta vivente, total
a coberto da telha vã
do alpendre da capela de St.º Adrião
(que estranha centralidade telúrica)

O Alba morrerá postumamente
como soem morrer
os que não morrem
de atropelamento e fuga

Meu caro,
gostava de ter escrito um bilhetinho informativo
como o teu
sobre o espólio de um morto resistente