quarta-feira, 28 de maio de 2008

Basma {44}

Faz da tua vida
o teu caminho sem ver
o que vem à frente
BASMA (44)


[Jall Sinth Hussein]

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Canto do nosso amor sem fronteira

Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós
só de ver puxar nós também puxamos
nas transpiradas ruelas antigas
da ilha de Moçambique.

Oh, beijemo-nos, amor
teus cabelos sussurrantes
na esplêndida nudez morena do meu peito
que são nossos os céus sulcados de xiricos e aviões
e nossos irmãos os povos de outros paralelos
até mesmo os pobres «boers» solitários
na cruzada de amor em que me abraças numa rua
principal da cidade de Pretória descontraidamente
como se fosse no bairro de Xipamanine.

Mas bem fundo das almas
e dos corpos tatuados de esperança
o clítoris das montanhas nos sexos das nuvens
pátria do nosso desespero mais desesperado
pátria dos pés descalços na brancura do algodão
pátria de beijos e promessas de mais beijos
é o nosso genuíno grito mais gritado
a levantar no cosmos a beleza do nome
não renegável de Moçambique.

[José Craveirinha]

domingo, 20 de abril de 2008

Hai ku

Arde
o ar de
fogo?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Do Mar o incriado nasce

A ilha existe não porque a achasses
mas porque a nomeias coração do vento
capaz deste segredo vontade grega
de amar o que a alma intui e cria.

E de tal modo ela seria e é desejo
que tudo esqueço para vê-la nua
devir do sentido no seu sentido vago
louco amor agreste que a utopia apela.

Na ausência de limites para o que sonhas
vacilante avanço ágil mas sem asas
sem medida luz do fragmentado verbo.

Rio e choro sendo a máscara e o rosto
Nomeado língua capaz do que não sei
Suspenso o tempo do mar o incriado nasce.


Virgílio de Lemos
[Ilha de Moçambique, 1952]

terça-feira, 8 de abril de 2008

Perguntas à Língua Portuguesa - Mia Couto

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?

Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?

Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

· Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
· No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
· A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
· O mato desconhecido é que é o anonimato?
· O pequeno viaduto é um abreviaduto?
· Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
· Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
· Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
· Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
· O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
· Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
· Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
· Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
· Mulher desdentada pode usar fio dental?
· A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
· As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
· Um tufão pequeno: um tufinho?
· O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
· Em águas doces alguém se pode salpicar?
· Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
· Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
· Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
· Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

domingo, 6 de abril de 2008

terça-feira, 1 de abril de 2008

Whampula

Tinha-me esquecido
não de ti,
mas dos cabeços pétreos,
sentinelas imemoriais
que te rodeiam


Tinha-me esquecido
não das ruas ortogonais
que delimitam os passos
regulares e despreocupados
das gentes
de todas as raças


Esqueci-me, sim,
das imensidões brancas
do algodão em terra de negros,
e dos jocosos
gala-galas imponentes
que se fartavam de
arremeter escarninhos olhares


Tinha-me esquecido
que, afinal,

havia aquíferos
onde antes campeava a malária
e os beligerantes se saudavam
como irmãos
antes da batalha


Mas não esqueci,
não pude esquecer,
o riso branco das crianças
as mãos calosas do Ismahíl
o peito magro do Jumah
a ambição do Eugénio
e o chikwembo do Pastola


Guardo, porém,
todos segredos de uma juventude
precocemente abreviada
e confio,
às escondidas,
na força dos embondeiros.

sexta-feira, 28 de março de 2008

A Ilha «em voo de pássaro»

Um link directo para a Ilha de Moçambique.


Ver mapa maior

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cavaco Silva na Ilha de Moçambique



Cavaco Silva visita hoje a Ilha de Moçambique.
JPT discorre no seu ma-schamba sobre a circunstância.
Oxalá algo de positivo possa resultar.
P.S. Já que tanto se fala do estado do Cemitério militar português de Pemba, fica imagem do estado do cemitério da Ilha, onde também seria necessário «deitar uma mãozinha»...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Fecundo o húmus

Dizer fértil
a veiga do Lima
ou as margens do Zambeze

e Zanzibar ao largo
num replandescente
ocaso no negrume
é eclusa a fechar o barco

há um crescente iluminando
a noite da Índia
e a tracção humana
do riquexó

dizer amado
solo sagrado
depois de transbordar
fecundo o húmus

segunda-feira, 17 de março de 2008

Nau perdida

Poucas vezes
aportou essa nau
ao largo da fortaleza

a sua equipagem dessedentava-se
no campo de S. Gabriel
à sombra rala das casuarinas

e gozava com as pretas
durante a estada
deixando passar a monção
embebedando-se com otekha

houve nessas paragens
heróis com escorbuto
e santos vivos ungindo
os moribundos
no adro da capela do baluarte

e no conto da companhia das Índias
estão ainda assentes os proveitos e as voltas
dessa lenta nau perdida
num tempo de presságio
apagado
de vez

sexta-feira, 14 de março de 2008

"Ilha de Moçambique"

Ilha de oiro e angústia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexós vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofiós
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Pórtico dos sonhos, momento
de índias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.


[Neves e Sousa]

terça-feira, 11 de março de 2008

Lágrimas do Índico


Penso nas árvores
quinhentistas
derrubadas

na conformada
aceitação do sortilégio
das gentes da Ilha

penso no imprompto
redemoinho
gerado talvez no meio do mar
ou no seio da terra

nos ventos uivantes
e avassaladores
de salitre e lágrimas

desabando
inclementes
sobre os barcos

domingo, 9 de março de 2008

Tempestade na Ilha



No ma-schamba de ontem dava-se conta de destruições, por tempestade natural "muito violenta", na Ilha de Moçambique.

É que a Ilha é local muito exposto, muito frágil. Um tufão monçónico ou tropical era o que menos falta fazia, agora, nessa tão amargurada terra.

Sabêmo-lo bem, a marginal da contra-costa estava em vias de destruição iminente, com marés mais violentas ou ondas fortes (que felizmente não abundam). A «natureza» encarregou-se de mais uma partida...

Lamenta-se o sucedido, pois a população vai sofrer mais agruras ainda, sem energia eléctrica, sem água (sem abastecimentos?).

Mas lamento mais não poder ajudar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A poesia e a Ilha de Moçambique

JPT, no seu ma-schamba, fez uma simpática e imerecida referência ao pendor poético deste blog, relativamente à Ilha de Moçambique.
É, como confessadamente se disse já, a «fraqueza» sentida deste incipiente aglutinador (o que aglutina- a-dor?) de palavras. E a assunção passional de um paradigma telúrico e existencial que alguns compreenderão. Porventura um devaneio pseudo-intelectual (ou pequeno burguês ?) para redenção de muitas mágoas e vivências, talvez não experimentadas ao limite ou no tempo certo.

Fez também um oportuno reparo para correcção do endereço actual do seu blog na lista de links . «Ordem» já cumprida, JPT.

A desculpa aos africanos

Pensava que a onda de «desculpas» como movimento de fim de milénio tivesse acabado.
Parece que não. Depois de o Papa ter pedido desculpas pela inquisição, depois de a Alemanha ter pedido desculpas pelo holocausto, julgava que estava tudo perdoado.
O arrependimento e o pedido de perdão, para ser genuíno, é o dos próprios ofensores, e não o "perdão" de terceiros, por muito pios e politicamente correctos que o sejam.
É uma atitude vazia, e, pior ainda, quando não se traduz em factos concludentes.
A escravatura e o colonialismo merecem ser compreendidos, debatidos, exorcizados, se necessário. Uma catarse é sempre positiva.
Mas este "perdão" pode ser a via mais fácil para a inconsequência.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Pedir desculpa aos africanos

Mário Crespo lançou o mote, há muito latente, sobre a utilidade, a pertinência, a necessidade, a oportunidade e as consequências de um «pedido de desculpas» aos africanos.
Ver no chuinga.
Como as opiniões já se dividem, saudavelmente, prometo pensar no assunto.

Eduardo White - Ilha de Moçambique

Para mais um texto do Eduardo White sobre a Ilha de Moçambique, aqui fica novo link para o ma-schamba.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A manutenção dos edifícios

É difícil a manutenção dos edifícios
na Ilha

pois neles recomeça
a gesta de todo o peso
da história

o cheiro dos madeiramentos
carcomidos
súbito o salitre
e a cal que se desprende
das paredes largas
e dos portais
e pousa triturado
no rosto-m´siro
das mulheres

É difícil conservar os edifícios
na Ilha
mais do que chamar
à razão
os homens
desprevenidos

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Quando soubesses

Quando soubesses
o que significa

«Comprámos muita fome
e desesperámos com ela
porque o milho
se mergulhou»

então poderias
exibir a tua
ignara arrogância

com aqueles
que se acham baços,
apagados e reféns,
como, num dia nublado,
as estrelas