sexta-feira, 24 de junho de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XII) - José dos Reis Bravo no Esquadrão de Cavalaria de Moçambique

Entre os muitos amigos que José dos Reis Bravo fez, e com o risco de ser injusto com o eventual esquecimento de alguns, justifica-se salientar José Miguel Morgado (posteriormente reitor do Liceu Gago Coutinho e Presidente da Câmara de Nampula), Arnaldo Constantino (mais tarde notabilizado pelo desempenho no desporto automóvel), Edmundo Ramalho, José Joaquim Caldas Duque (mais tarde médico veterinário pioneiro da inseminação artificial de gado em Moçambique), Hermínio Cruz (professor de Matemática de diversas gerações), Gaspar Dantas (filho do célebre Professor Dantas, dono do Colégio interno de Nampula), Edmundo e Alcides Seabra, Didier Mimoso Lopes (director mecânico da firma João Ferreira dos Santos), Fernando Teixeira, Armindo Saraiva e Gonçalves Dias da Silva. Ilha de Moçambique em 1952 José dos Reis Bravo com amigo

José dos Reis Bravo com amigo


Mas teve também, como amigas, entre outras, Beatriz Tomé Monteiro e Luísa Cruz (esposa de Marcelino Cruz, ambos futuros contabilistas da sociedade com o tio Domingos), as quais trabalharam no Entreposto, bem como Ninela e Anita Quadros (que trabalhou na Zuid).

José dos Reis Bravo, com amiga



José dos Reis Bravo ao volante (à direita) de um veículo. Na parede, pode ver-se, ampliando, um cartaz de propaganda política ao regime do Estado Novo.

O tempo de alistamento no serviço militar chegara, e José dos Reis Bravo é incorporado no Esquadrão de Cavalaria de Moçambique no ano de 1953. Embarcou na Ilha de Moçambique, no paquete Moçambique, para Lourenço Marques, em ocasião em que a instrução era ministrada em Boane, para, depois desse período inicial, passar para o aquartelamento na capital. O paquete Moçambique, que transportou José dos Reis Bravo da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques, quando foi incorporado no serviço militar


José dos Reis Bravo (ao centro) com grupo de amigos, na viagem da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques

Aspecto de formação do Esquadrão de Cavalaria de Moçambique


Foi um tempo de grande camaradagem, em que, a par das actividades estritamente militares – que cumpriu como cabo –, e de treino de cavalaria, continuou a praticar diversas modalidades desportivas. Aspecto do Esquadrão de Cavalaria de Moçambique

Adaptou-se com agrado à exigente e disciplina da vida militar na arma de cavalaria, ficando para sempre ligado à prática da equitação (vindo a ser membro do Clube de Equitação de Nampula) e com grande gosto por cavalos, que trasmitiu aos filhos.





José dos Reis Bravo, montando um cavalo do ECM




A rotina do dia-a-dia da vida militar - em que avultavam os exercícios nas denominadas «barreiras» (taludes de forte inclinação sobre a baía) - era também compensada com alguma diversão, na qual se compreendem alguns namoros, na Lourenço Marques dessa época, uma cidade em formação, marcada por estigmas coloniais, certamente, mas já cosmopolita, multicultural e moderna.

domingo, 19 de junho de 2011

Série Askari (14)

Askari do Império Colonial Alemão da África Oriental.

sábado, 18 de junho de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (XI) - José dos Reis Bravo no Entreposto Comercial de Moçambique

A manutenção de José dos Reis Bravo na gerência do Café Nacional (do Hotel Raposo) foi bem sucedida. Contudo, o contraste entre formas mais modernas de encarar a gestão do estabelecimento e de pessoal com visões mais conservadoras, gerou alguns atritos e equívocos. Essas vicissitudes levaram José dos Reis Bravo a procurar uma actividade mais autónoma e descomprometida relativamente à família e ao tio Domingos dos Reis.
É admitido a trabalhar no Entreposto Comercial de Moçambique, grupo económico em fase de plena expansão. José dos Reis Bravo (no escritório do Entreposto)



José dos Reis Bravo passa a ser colaborador do Entreposto Comercial de Moçambique (ECOMO), como escriturário, na sucursal de Nampula em 1951. Os gerentes da sucursal eram o ex-administrador João Quadros - tio dos irmãos Quadros, Rui (caçador profissional), Maria João (cantora) e Nuno (actualmente proprietário do Bar referência de Maputo, Kampfumo) - e o Senhor José Deodoro da Cruz, pai de Hermínio Cruz, que foi conhecido e reputado professor de Matemática em Nampula.


O grupo empresarial Entreposto foi fundado em 1926 com a constituição da Sociedade Agrícola do Sena, Ld.ª, depois transformada na Companhia Nacional Algodoeira, SARL. Só em 1943 o Grupo Entreposto aparece como grupo financeiro, envolvendo um conjunto crescente de empresas visando objectivos específicos, subordinadas a políticas empresariais comuns. Em 1943 é reestruturada a Companhia Nacional Algodoeira, incorporando a actividade desenvolvida pela Companhia de Moçambique; em 1946 é constituída a Moçambique Industrial, para o fabrico de óleos alimentares e sabões; em 1947 é criado o Entreposto Comercial de Moçambique, que passará a representar as marcas Mercedes-Benz, Peugeot e Massey -Ferguson; só em 1955 é criada a Companhia Industrial do Monapo, para produção de óleos alimentares e sabões; em 1964, seriam agrupadas na Moçambique Florestal as actividades madeireiras até aí cometidas à Companhia de Moçambique e pelo Entreposto Comercial de Moçambique. Ao grupo esteve sempre ligada a família Dias da Cunha, como administradores. Sede do Sporting Clube de Nampula (em dia de festa) José dos Reis Bravo Sede do Sporting Clube de Nampula (em contrução)


José dos Reis Bravo continua a desenvolver intensa actividade desportiva, em várias modalidades, sempre fiel ao Sporting, nas quais estabelece amizades duradouras. Chegou a jogar pelo Clube Niassa e a integrar a equipa de Basquetebol do Entreposto.Equipa de basquetebol do Entreposto Comercial de Moçambique (José dos Reis Bravo à direita, na linha de baixo)


José dos Reis Bravo permanece a trabalhar no Entreposto até 1953, ano em que é incorporado no serviço militar.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Série Askari (13)




Askari músico do Império colonial alemão.

domingo, 12 de junho de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (X) - José dos Reis Bravo no Café Nacional (do Hotel Raposo)

A década de 50 do séc. XX adivinhava-se promissora, em termos de desenvolvimento dos territórios do Norte de Moçambique, o que motivou o incremento da vila de Nampula, assumindo já então o estatuto de «capital do Norte».
Hotel Raposo (em 1950, na esquina do mesmo quarteirão do edifício da original firma João dos Reis)

O edifício do ex-Hotel Raposo, na actualidade (foto de Paulo Pires Teixeira)


A família de Domingos dos Reis estava ligada, como atrás se disse, à família Raposo. Domingos dos Reis era casado com Haidée Lopo, filha de Alice Lopo, esposa do Senhor Raposo, reputado empresário hoteleiro, que geria os hotéis «Raposo» da Ilha de Moçambique – que ficava onde actualmente funciona a Escola Secundária –, do Lumbo – que funcionava como “desdobramento” das necessidades daquele, para as pessoas que prosseguiam viagem para o interior – e de Nampula.
O casal Domingos dos Reis e Haidée Lopo (à esquerda), com os tios de Domingos, Senhor Artur Martins Carrondo, Director da Fazenda de Porto Amélia e de Nampula, e esposa, com o serviçal «Pequenino», filho do empregado «28», do Clube Niassa.

O senhor Raposo tinha outro filho, Homero Raposo, então estudante na África do Sul, antes de casar e de optar por uma vida mais autónoma e aventurosa em Mandimba e na margem do Lago Niassa, onde, com a esposa Alda, passou a gerir pequenas empresas de pesca artesanal, de retalho, de compra e venda de produtos agrícolas e de fotografia. A filha do casal Domingos dos Reis, Natália (à esquerda) com Maria Helena Morgado (irmã do Dr. José Miguel Morgado, que veio a ser reitor do Liceu Gago Coutinho)



Os hotéis Raposo eram referências de qualidade de alojamento, numa época colonial de escassez de oferta hoteleira, em que os empregados envergavam, invariavelmente, os trajes de inspiração swahíli, com seus barretes grenat, com serviço impecável a muitos hóspedes que pisavam pela primeira vez terras de África.

É neste contexto, que, em dado momento, em finais de 1950 se torna necessário substituir o gerente do Bar e Café do Hotel Raposo de Nampula, pelo que o lugar é oferecido a José dos Reis Bravo, que o aceita, passando a gerir o mesmo sob a designação de «Café Nacional», agora no edifício do Hotel Raposo, em Nampula (uma vez que o anterior Café Nacional se havia extinto, com o arrendamento do edifício à firma Zuid). José dos Reis Bravo, após ter iniciado as funções de gerência do Café Nacional (do Hotel Raposo de Nampula)
José dos Reis Bravo em frente ao Hotel Raposo, em Nampula
José dos Reis Bravo e colegas



O Café Nacional passou, então, a ser local de encontro emblemático de Nampula, em que confraternizavam funcionários dos CFM, bancários, militares, administrativos, agricultores («machambeiros»), empresários, empregados comerciais, entre outros, sendo uma das diversões preferenciais o jogo de dados mediante apostas, em que se apostava uma garrafa de cerveja (depois de no anterior Café Nacional de apostar uma caixa de cerveja). A família Raposo (vendo-se Homero Raposo, à esquerda, e a mãe deste e de Haidée Lopo, D. Alice Lopo Duque Raposo, à direita) com amigos, entre os quais se vê o Eng.º Melo Duque, dos CFM, na varanda no Hotel.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Série Askari (12)

Cena de batalha africana protagonizada por askaris do exército imperial alemão da África Oriental.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Série Askari (11)

Askari do Império alemão da África Oriental.

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (IX) - o sobrinho José dos Reis Bravo e o tio Domingos dos Reis

As necessidades das populações nativa e colonial de Nampula, não cessavam de aumentar, quer em quantidade, quer em qualidade. Tornou-se um mercado em que era preciso diversificar a oferta, e foi em finais da década de 40 e na de 50 do séc. XX que muitas firmas já estabelecidas na localidade, desde as grandes companhias de chá e de algodão (CAM) e tabaco (VELOSA e SUT), a empresas de carpintaria, de maquinaria diversa (Entreposto e João Ferreira dos Santos), entre outras, conheceram grande expansão.
A região de Nampula era uma zona agrícola de excelência para certas culturas indígenas, como o algodão (o fundo do emblema da cidade é composto de folículos de algodão), o tabaco e o caju. Brasão de Nampula

Os primeiros tempos de José dos Reis Bravo, apesar do apoio dos tios, não foram de facilidades. Para além do esforçado trabalho, empreendeu estudos de comércio e de contabilidade, de forma a possibilitar-lhe um melhor enquadramento da actividade comercial em que estava empenhado. Café Nacional Nota de 5$00 (de 1941)




José dos Reis Bravo fica instalado, como se disse antes, na casa dos tios, ao lado do então Café Nacional, que funcionava no edifício que viria a ser da Zuid Afrikaansch Handelshuis. Ali se dedica com interesse às actividades desenvolvidas nesse estabelecimento, que, como já dissemos, eram predominantemente de hotelaria, modas e vestuário, comércio geral, lotarias, valores selados e brindes.
José dos Reis Bravo, trabalhando no escritório do Café Nacional


Equipa do Sporting Clube de Nampula (José dos Reis Bravo é o 1.º da esq.ª, na linha de baixo)

Nesse período estabelece variados contactos, adapta-se a um novo modo de vida, em que assume preponderância a prática do desporto, em várias modalidades, actividade que era excelente veículo para contactos sociais e estabelecimento de afinidades e amizades.


Equipa do SCN (José R. Bravo é o primeiro da esq.ª em baixo)

José dos Reis Bravo


Até 1950, o estabelecimento Café Nacional, de Domingos dos Reis, manteve-se no mesmo edifício, até este ser alugado à firma Zuid, de comércio de ferramentas e electrodomésticos e agência de viagens, a qual assumiu o seu arrendamento até 1975.
Quando a família se mudou para a então Av. Neutel de Abreu (actual Av. 25 de Setembro), lá prosseguiu a exploração dos mesmos ramos de actividade.
Casa de Domingos dos Reis, para onde se mudou o estabelecimento em 1950, na então Av. Neutel de Abreu (actual 25 de Setembro).

domingo, 29 de maio de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (VIII) - o irmão Domingos dos Reis e o sobrinho José dos Reis Bravo

O sobrinho, José dos Reis Bravo, então com 14 anos, é aliciado a ir juntar-se ao tio Domingos dos Reis, viajando com este após um período de férias na metrópole, com a família. Em Fevereiro de 1946, desembarcam na Ilha de Moçambique, fixando-se em Nampula, junto dos tios.
José dos Reis Bravo começa imediatamente a colaborar com o tio Domingos nos ramos comerciais a que este, então, já se dedicava, na exploração do Café Nacional: hotelaria (pensão, restaurante, bar e café), tabacaria, lotarias, valores selados, jornais e revistas, louças, tecidos e modas, fornecimento de gás, brindes, agência de seguros, representações de artigos diversos, importações e exportações (comércio geral, por excelência).
José dos Reis Bravo, no escritório do Café Nacional



A excelente localização (na então Avenida presidente Carmona, actual Paulo S. Kankhomba) do estabelecimento e a reduzida concorrência, fizeram prosperar o negócio, não sem que tal exigisse uma dedicação e esforço de todos, designadamente do recém-chegado sobrinho, que se adaptou com relativa facilidade ao estilo de vida e ao trabalho para que fora recrutado.
Os primeiros tempos do sobrinho José dos Reis Bravo foram de adaptação a um novo modo de viver; foi um desafio à forma como um rapaz de 14 anos se integra num ambiente estranho, algo distante dos problemas da gestão comercial, mas conseguiu superar esse repto e adaptou-se às novas condições de vida, passando a viver num quarto com banho no edifício contíguo ao do Café Nacional, que o tio Domingos entretanto construíra e passaria a ser, anos mais tarde, o edifício da residência e o estabelecimento principal da sociedade que formariam.

José dos Reis Bravo (à direita) e um amigo. Nota de 1$00 em curso na Colónia de Moçambique O balcão do Café NacionalJosé dos Reis Bravo insere-se no meio social comercial e desportivo, desenvolvendo a sua faceta de praticante de voleibol, futebol e, posteriormente, de ténis, representando diversos clubes, com preponderância para o Sporting Clube de Nampula. Conhece o meio e terras limítrofes, sobretudo em digressões proporcionadas pela prática desportiva, deslocando-se a muitos locais da zona Norte de Moçambique. O edifício do Sporting Clube de Nampula O edifício do A. Teixeira (Niassa), Ld.ª (em construção).


Nessa época, haviam-se já instalado outras firmas, como o Entreposto Comercial de Moçambique, A. Teixeira (Niassa), Ld.ª, Adolfo Matos, Pendray Sousa, Catoja, Bazar Favorito, Lopes Cravo, Espingardaria Nazaré, entre outras, que figuravam como co-pioneiras no desenvolvimento comercial de Nampula.

domingo, 22 de maio de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (VII) - o irmão Domingos dos Reis (cont.)

Muito do que Nampula se veio a tornar, ficou a dever-se à actividade empresarial e, também, às funções por si desempenhadas no cargo de vereador e de presidente do Conselho Municipal, que ocupou por diversos mandatos. Vista geral da cidade em 1960.

Contribuiu decisivamente para que Nampula se viesse a metamorfosear de uma vila com potencial de desenvolvimento numa cidade bem planeada e com um urbanismo racional e harmonioso, chegando a adoptar o epíteto de «Nampula – a Linda», convertendo-se na capital do Norte de Moçambique. Ali se instalaram serviços públicos de todas as valências, em que veio a preponderar o Quartel General da Província e, já em meados dos anos 60, o Hospital Egas Moniz, equipamento exemplar para época e ainda hoje constituindo modelo arquitectónico, bem como um Museu, cuja actividade científica no âmbito da etno-antropologia deu origem à edição periódica de um boletim que se veio a converter em referência internacional.
Domingos dos Reis teve, no âmbito dessas atribuições, oportunidade para se tornar proprietário de alguns terrenos cuja localização se veio a revelar privilegiada.

Aspecto da Avenida ex-Presidente Carmona (actual Paulo S. Kankhomba) em frente ao Café Nacional.

Adquiriu praticamente um quarto de um dos quarteirões centrais da parte alta da cidade, compreendido entre o prédio do ex-Lopes Cravo e Pendray Sousa e o edifício da Casa da Câmara (actual Assembleia Municipal, abaixo da ex-Casa Dias, cujo edifício vendeu aos irmãos Acácio e Francisco Dias) e um terreno entre as Avenidas Neutel de Abreu e António Enes, em frente ao Colégio de Nossa Senhora das Vitórias.
Vista actual do 1/4 do quarteirão, em que se vê o edifício de cabeleireiro, o telhado da Sapataria Gonçalves e da Barbearia, o edifício de Domingos dos Reis & Sobrinho, Ld.ª (actual New Stationery) a (Nova) Zuid (ex-Café Nacional), a Primus Modas e a Ourivesaria Tito Martins, vendo-se ainda os telhados da Casa Dias.



Foto do casamento do Domingos dos Reis e de Haidée Lopo.

Com o regresso do irmão João à metrópole, Domingos dos Reis, apesar de casado e de ter duas filhas, sente a necessidade de um apoio, preferencialmente familiar, para o ajudar a desdobrar-se nas suas tarefas empresariais.




Propoe, assim, a um sobrinho, José, filho da irmã Laura, na época estudante em Braga, a sua ida para Nampula, o qual, com 14 anos, e obtido o acordo familiar, em 1946, aceita o desafio e parte para o território numa das viagens de regresso em que o tio Domingos viera, com a família, em férias, à metrópole.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental portuguesa (VI) - o irmão Domingos dos Reis (cont.)

Domingos dos Reis revelou-se um comerciante com visão prospectiva e um empreendedor que aproveitou as oportunidades que o processo de desenvolvimento de uma urbe como Nampula potenciou.
Além disso, Domingos dos Reis – à semelhança do irmão João dos Reis, que ocupara na Ilha de Moçambique diversos cargos e funções de interesse público – dedicou-se, também, à causa pública, tendo sido vogal da Comissão Administrativa (correspondente à actual câmara municipal) da Vila de Nampula e, em certo momento, seu presidente.
O edifício onde primeiro funcionou a firma João dos Reis & Irmão, já após a instalação da firma Cassam Vissram, depois da urbanização da Av. Presidente Carmona.

Casa de Domingos dos Reis e esposa na Ilha de Moçambique. O casal em visita em 1970.


Era um tempo de expansão da urbe, pelas incessantes necessidades de estabelecimento de serviços públicos, empresas industriais e comerciais, bem como de fixação de população, chegada da metrópole para os quadros que se tornava necessário preencher. Importava providenciar por infra-estruturas de toda a ordem, desde edifícios que pudessem servir de instalações de serviços públicos coloniais (nos domínios ferroviário, aeronáutico, agrícola, da saúde, de ensino, militar e administrativo) a complexos residenciais. Esse processo de desenvolvimento que começou a ter lugar no início da década de 40 do séc. XX, conheceu o seu expoente na transição da década de 40 para a de 50.


Um dos edíficios mandados construir por Domingos dos Reis, em Nampula.


Só depois, a partir do início do início da luta armada de libertação (1961), a urbe experimentou novo processo de reexpansão, podendo dizer-se que, em meados da década de 60, o núcleo urbano da cidade de Nampula se havia estabilizado, com a configuração que ainda hoje, em grande medida, apresenta.
Domingos dos Reis foi, à sua dimensão, um dos artífices daquele primeiro processo de ordenamento e desenvolvimento da então Vila de Nampula, a vários títulos notável.


A catedral de Nampula em construção.

Mercê da existência de extensos espaços no meio de um planalto, traçou-se prospectivamente uma cidade de malha ortogonal, de acordo com os princípios do “modelo urbanístico colonial francês”, com largas avenidas principais de duas vias e com arruamentos secundárias de dimensões generosas. Tal traçado permitiu sempre um tráfego automóvel e pedonal desafogado, bem como uma harmoniosa integração do património construído na paisagem natural. Só raramente assim não foi.
Foi este o tempo do início da construção da catedral de Nampula (também se construíram catedrais em África), de projecto de Raul Lino, da rotunda do Infante, e de diversos edifícios de relevo.


Construção e arruamento da Praça do Infante, ao fundo da Av. Presidente Carmona.


Início da Av. Pres. Carmona, em Nampula, perto da estação dos CFM.



Conforme já se disse, é em 1935 que a cidade de Nampula se converte em capital de Distrito, destronando a Ilha de Moçambique. Em 1940 é instituída a diocese de Nampula. Só em 1956 a Vila é elevada a cidade Nampula.
Domingos dos Reis prossegue o giro do Café Nacional e de gestão do seu parque edificado, do qual recebe o rendimento que lhe permite começar a pensar em reformular o seu projecto de vida e o progressivo abandono do território.

domingo, 1 de maio de 2011

Breve memória familiar e comercial da África Oriental Portuguesa (V) - O irmão Domingos dos Reis (cont.)

Domingos dos Reis veio estabelecer-se em Nampula, já o dissemos, pelo incentivo do irmão João. Nampula conheceu um processo de desenvolvimento mais acelerado a partir de 1934, incentivou os irmãos sócios a ali se fixarem com mais permanência. Domingos dos Reis casou com Haidée Lopo ainda na Ilha de Moçambique. Tiveram duas filhas, Natália e Maria Alice, residindo uma actualmente em Portugal, outra no Canadá.
Ali prosseguiu a consolidação da actividade comercial da sociedade João dos Reis & Irmão, não descurando, no entanto, algumas iniciativas pessoais, nomeadamente no tocante à expansão de um importante património imobiliário, numa fase em que se fazia sentir a carência de infra-estruturas para o estabelecimento de actividades oficiais, comerciais e habitacionais. Deu, assim, início à construção de uma série de edifícios em diversos locais de Nampula, muitos deles ainda hoje em bom estado e em perfeitas condições de utilização, que dava de arrendamento.
A primeira dessas construções foi a do original Café Nacional (que é edifício onde hoje se encontra a «Nova Zuid») e do complexo comercial anexo, onde durante muito tempo esteve instalada a Casa Primus e a Ourivesaria Tito Martins. Para ali se transferiu o estabelecimento da sociedade João dos Reis & Irmão, que ocupou, como já tivemos ocasião de dizer, o primeiro edifício de alvenaria de utilização particular, da localidade.
Tratou-se de um impulso muito relevante na expansão das actividades comerciais, pois que foi ali que a sociedade conheceu um período de maior consolidação, com a exploração da actividade de hotelaria (pensão e café), representação de seguros, venda de lotaria, valores selados, importação e exportação de artigos por junto e, posteriormente, posto de abastecimento de combustíveis.
Café Nacional




O Café Nacional tornou-se numa espécie de ponto de encontro obrigatório entre funcionários, militares, comerciantes, bancários, caixeiros-viajantes (que lá ficavam alojados), «machambeiros» (que vinham à localidade tratar de assuntos burocráticos e abastecer-se de produtos e equipamentos), os quais se reuniam ao fim da tarde para discutir a actualidade da vida da Província. Sempre, é claro, acompanhado de bom marisco e muito gin, whisky com gelo e outras bebidas adequadas ao clima.

Edifício onde se instalou a firma Vitoldás, contígua ao estabelecimento original de João dos Reis & Irmão.

Domingos dos Reis, esposa e uma das filhas.


A actividade da sociedade prosseguiria normalmente até 1949, ocasião em que o irmão João decide regressar à metrópole, pondo fim e liquidando a mesma. Fariam partilha dos bens, ficando o edifício da firma Cassam Vissram, uma quinta entretanto adquirida pela sociedade no Norte de Portugal e a livraria de Braga para o irmão João. Para Domingos ficou o resto dos imóveis em Moçambique e o património social, que continuou sob o seu giro pessoal.


Domingos dos Reis permanece na Província, abandonando progressivamente as posições da Ilha de Moçambique e de Angoche, concentrando-se nas actividades - agora a título individual - na então vila de Nampula.